Obras-primas: O Elefante Sagrado (L’Elefante Sacro) – 1

mompeo-ri-anni-settanta2Em 2012 celebrou-se o centenário do nascimento de Francesco (Franco) Caprioli, um dos artistas e autores de BD que ainda hoje mais admiro e que ficou conhecido pelo cognome de “poeta do mar”, devido ao seu fascínio pelas ilhas dos Mares do Sul e pelos ambientes exóticos e marítimos, que retratou com incomparável mestria.

Descobri-o nas páginas do saudoso Cavaleiro Andante (que comecei a ler desde o 1º número), e o meu apreço pelo seu enorme e poético talento de ilustrador foi sempre aumentando, à medida que iam surgindo outras criações suas no Cavaleiro Andante (e respectivos Álbuns e Números Especiais), Zorro, Jornal do Cuto e Mundo de Aventuras, antes da publicação em álbum de algumas das obras mais significativas da última fase da sua carreira, como as adaptações que fez de quatro célebres romances de Jules Verne: “A Ilha Misteriosa”, “Um Capitão de 15 Anos”, “Miguel Strogoff” e “Os Filhos do Capitão Grant”.

Capa revista Caprioli 150Algumas pranchas com reproduções destas e de outras histórias, num longo percurso artístico de quase 40 anos — iniciado em 1937 nas páginas de duas revistas juvenis, ArgentovivoIl Vittorioso — estiveram patentes nas exposições do centenário que lhe foram dedicadas em Portugal, nos meses de Junho e Agosto de 2012, por iniciativa do Salão de Moura e do Gicav de Viseu, com Luís Beira e Carlos Rico, dois nomes incontornáveis do nosso panorama bedéfilo, no papel de activos e zelosos comissários. Também nessa altura foram editados pelas mesmas entidades um fanzine e um e-book (DVD), que tive a honra e o prazer de coordenar, com muitos excertos da obra de Caprioli — e ainda possivelmente disponíveis para quem estiver interessado, basta contactar o Carlos Rico (Câmara Municipal de Moura) e o Gicav – Grupo de Intervenção e Criatividade Artística de Viseu.

O ano e as comemorações do centenário — que tiveram a valiosa colaboração de Fulvia Caprioli, filha do grande Mestre italiano — já passaram, mas queremos prolongá-las, intemporalmente, neste blogue, inaugurando um ciclo dedicado a Caprioli, com a reprodução de algumas das suas primeiras histórias publicadas no nosso país, a começar por uma das mais famosas: “O Elefante Sagrado” (L’Elefante Sacro), apresentada do nº 1 ao nº 29 do Cavaleiro Andante (5 de Janeiro a 19 de Julho de 1952) e reeditada em Dezembro de 1987, a preto e branco, no nº 6 dos Cadernos de Banda Desenhada, efémero projecto editorial a que a Catherine Labey, eu e mais dois amigos metemos ombros, quando éramos mais jovens e mais sonhadores.

ELEFANTE SAGRADO - TRIGOParece-me, para todos os efeitos, uma boa maneira de inaugurar este blogue… Mas não iremos apresentar somente as páginas do Cavaleiro Andante, completadas com a esplêndida e deco- rativa ilustração de Fernando Bento que saiu na capa do seu nº 10. Com a devida (e gentilíssima) autorização de Fulvia Caprioli, a quem muito agra- decemos, mostraremos também, em simultâneo, as páginas originais, em grupos de quatro, para que os nossos potenciais leitores — a partir desta data — possam detidamente apreciá-las, comparando a impressão a duas cores e a preto e branco (não isenta de muitos defeitos) do Cavaleiro Andante com o sedutor aspecto cromático das páginas do Il Vittorioso, revista semanal e de grande formato que fazia inveja às revistas portuguesas (e a muitas outras) do seu tempo. Neste caso, reproduzimo-las do álbum editado em 1989 pelas Edizioni Camillo Conti, na magnífica série dedicada a Caprioli.

Quem quiser ler uma biografia do Mestre italiano e apreciar mais alguns dos seus desenhos, pode consultar o blogue da Catherine, em português e francês,  lechatdanstousesetats.wordpress.com  (“Gatos, gatinhos e gatarrões“), na categoria I gatti di Franco Caprioli, dedicado aos seus (e meus também) amados bichanos de quatro patas.

Resta indicar que L’Elefante Sacro, uma das criações formalmente mais deslumbrantes de Caprioli, teve a sua primeira publicação em 1949, nos nºs 22 a 50 do Il Vittorioso, com argumento de Luigi Motta, autor de numerosos romances de aventuras em que se reflecte a influência do seu mestre e amigo Emilio Salgari, alguns dos quais foram também traduzidos e publicados no nosso país pela popular editora Romano Torres.

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Caprioli, o Poeta do Mar

“O rapaz que vivia longe do mar”

 por Jorge Magalhães

Caprioli (auto-retrato)Nota prévia: As ilustrações que figuram neste artigo foram feitas por Caprioli nos seus “verdes anos” — aos sete, quando ainda não tinha visto o mar, e aos dezasseis, quando embarcou como grumete numa viagem à Líbia. A última é uma pintura a óleo sobre papel, com outra vista de Tripoli. Agradecemos a Fulvia Caprioli, filha do Mestre, a oportunidade que  gentilmente nos concedeu de mostrarmos estas preciosas e inéditas ilustrações aos nossos leitores e amigos.

A Fulvia, cujo aniversário se celebra hoje, dia 28 de Junho, é dedicado também este blogue, que criámos para homenagear a memória do grande desenhador italiano, agradecendo-lhe postu- mamente tantos momentos de encantamento que nos proporcionou e a muitos outros leitores do “Cavaleiro Andante”, que ainda hoje, muitas décadas depois, recordam com emoção essas horas felizes e a deslumbrante beleza do seu poético e harmonioso estilo.

Franco Caprioli nasceu e viveumompeo-ri-1922-copy1 sempre longe do mar. E parece que só o viu pela primeira vez com a idade de 16 anos (numa viagem à Líbia, onde apanhou uma grande desilusão, pois aquele não era o mar com que tinha sonhado, o mar visto pelos olhos da sua fantasia). Desde pequeno que queria tornar-se um aventureiro, um capitão da Marinha como o tio, que lhe contava relatos maravilhosos das ilhas do Pacífico e das suas viagens pelos mares do Oriente. Além disso, o moço Caprioli lia muitos romances de aventuras, escritos por homens que também tinham sangue de aventureiros e sabiam evocar magis- tralmente a magia dos grandes oceanos, como London, Melville, Stevenson, Salgari e Verne.

Esse fascínio pelo mar, por um elemento vasto e estranho que ainda não conhecia, moldou o espírito de Caprioli e influenciou o seu destino, tornando-o 1919-i-primi-disegni-com-legenda1um sonhador que pro- curava criar um mundo à sua medida, onde, entre a realidade e a fantasia, pudesse viver as suas próprias aven- turas. Em resumo: foi o mar que veio ao encontro de Franco Caprioli, com todo o sortilégio e toda a atracção romântica que a simples evocação dos seus nomes, do seu poder, dos seus mistérios e dos seus perigos, despertara num ladino garoto da província que gostava de desenhar e pintar, nascido em Mompeo, pitoresca região do centro de Itália, a curta distância de Roma.

E Caprioli aproveitou o talento artístico que sentia fervilhar dentro dele para aceitar esse destino, para responder ao desafio do mar, começando a descrevê-lo nos seus rabiscos (logo aos 7 anos)ricordo-di-tripoli-19284 como se o conhecesse melhor do que ninguém, como se tivesse viajado como grumete na escuna do seu tio, enfrentando ventos e tempestades, cruzando paralelos longínquos, ca- çando animais marinhos, desem- barcando em ilhas desertas com nomes exóticos — como Tahorai-Tiki- -Tabu, Matarewa e “Quinta-Feira” — onde só o embate das vagas nos recifes e o piar das gaivotas quebra- vam o silêncio, convivendo com nati- vos que a civilização ainda não con- tagiara e deixando-se embalar pela magia da natureza, ao som dos batu- ques e dos cânticos guturais que ecoa- vam sob a ramagem dos coqueiros.

Um mundo natural e irreal ao mesmo tempo, que nascia no seu espírito e ao qual a sua mão dava forma com gestos habilidosos, espontâneos, traçando numa prancha de desenho, sobre uma folha de papel, as coordenadas de muitas viagens que fazia na pele dos seus personagens e em companhia dos seus leitores, promovido também a capitão, audaz e experiente como um velho marinheiro que conhecia as rotas de todos os oceanos.libia-tripoli-19281 Talvez por isso não há mares como os seus, não há paisagens exóticas, ilhas paradisíacas, que nos fascinem tanto como as que avistamos guiados pela sua bússola e pelo timoneiro que manobra o leme com mão firme; não há tufões nem naufrágios que nos impres- sionem tanto como aqueles a que assistimos na sua ponte de comando, condoídos com a sorte dos mareantes que se debatem entre as vagas, vítimas da fatalidade, mas capazes, no entanto, de vencer as maiores tempestades — como Ângelo (ou Rudi), o pequeno órfão de “O Elefante Sagrado”, único sobrevivente do navio baleeiro que se tornara o seu lar.

Os sonhos de Caprioli acabaram por moldar os sonhos dos jovens que liam as suas histórias e que comun- garam com ele o destino dos seus heróis… como se navegassem também nos longínquos mares austrais, seguindo o curso das estrelas, perscrutando novos horizontes onde refulgiam fabulosas ilhas de coral, sentindo o apelo da aventura como as velas enfunadas pelos ventos alísios!…

(Este texto é oriundo do blogue “O Gato Alfarrabista”, onde foi postado em 28 de Janeiro de 2013).

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