Obras-primas: O Elefante Sagrado (L’Elefante Sacro) – 4

Apresentamos hoje mais algumas páginas desta magnífica história ilustrada por Caprioli, com argumento de Luigi Motta, que enceta um novo capítulo, desenrolando-se daqui em diante nas profundezas selváticas e misteriosas da Índia, quando Ângelo (Rudi), um jovem órfão que todos admiram por causa das maravilhosas estatuetas que cria, deixa a paz da sua nova existência para procurar a filha de um marajá tragicamente desaparecida.

Pinttura dal vero, anni quaranta, con la moglie Francesca Duranti copyRecordamos que “O Elefante Sagrado” teve honras de publicação no Cavaleiro Andante, em 1952, do nº 1 ao 29, e que em Itália surgiu no Il Vittorioso, em 1949, do nº 22 ao 50. Note-se que a  numeração desta revista era feita por volumes, correspon- dendo cada um deles a um ano completo. Em 1949, o Il Vittorioso (onde Caprioli colaborou desde o 1º número) já ia no seu 13º ano de publicação… enquanto que o Cavaleiro Andante, o novo “camaradão” da juventude portuguesa, dirigido também por Adolfo Simões Müller, ainda não sucedera ao Diabrete, para o qual os tempos corriam de feição no despique com o seu velho rival O Mosquito (nascido um ano antes do Il Vittorioso).

Nenhum leitor, nem mesmo o mais entusiasta, sonhava que uma revista nos moldes do Cavaleiro Andante pudesse substituir o Diabrete, três anos depois… revelando-lhe, logo nos primeiros números, o nome de um grande desenhador como Franco Caprioli, que, nessa altura, já era conhecido e admirado noutros países da Europa. Mas foi em Portugal que a sua popularidade atingiu o auge, fora de Itália, cimentando uma relação com os leitores que durou muitas décadas, como ficou provado aquando das celebrações do seu centenário (2012), realizadas com grande solenidade em Moura e em Viseu, pelos respectivos Salões de BD, com o apoio dos seus municípios e do Gicav.

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Caprioli e Emilio Salgari – 1

L'isola TabuEntre as muitas obras-primas que saíram das mãos de Franco Caprioli, particu- larmente nos anos 50 — talvez o seu período de maior expressividade artística, aquele em que foi um dos autores que mais se distinguiram nas páginas do Il Vittorioso —, conta-se, sem dúvida, “O Elefante Sagrado”, história estreada em Portugal, como já referimos, no nº 1 do Cavaleiro Andante (5/1/1952). Curiosamente, nesse período, Caprioli preferiu trabalhar com guiões alheios — ao contrário do que fizera nos primeiros anos da sua carreira, em revistas como Argentovivo, Topolino e Giramondo, dando um exemplo da sua mestria no campo literário, que não ficava aquém da de ilustrador, como provam, entre outras obras, L’Isola Giovedi e L’Isola Tabu.

“O Elefante Sagrado” tem a particularidade de simbolizar um regresso de Caprioli a temas exóticos que sempre gostou de abordar, numa miscelânea de acção, aventura, melodrama e fascínio por terras e povos desconhecidos. salgari-os-mistérios-da-selva-negraComo a Índia, no século XIX, onde se desenrola grande parte do enredo desta história.

Luigi Motta, autor do argumento e amigo e discípulo de Emilio Salgari, escreveu um belo romance de aventuras onde parece pairar, graças à magia artística de Caprioli, a sombra de Tremal-Naik e Kammamuri, heróis de um livro que muitos jovens portugueses leram com emoção: “Os Mistérios da Selva Negra” (I Misteri della Jungla Nera), reeditado em 1999 pelo Círculo de Leitores, num ciclo de homenagem a Salgari (e cuja capa reproduzimos, a título de curiosidade, embora esta não seja a “montra dos livros”, tão apreciada pelo nosso gato).  

Tal como nesse livro, os ferozes Thugs, inimigos de todos, indianos e brancos, que não professam as suas sanguinárias crenças, vão armar várias ciladas a Ângelo e ao seu companheiro de odisseia, quando estes se internam corajosamente na selva, em busca de uma princesa raptada pela misteriosa seita.

salgari-sandokan-tem-um-rivalA propósito do romance de Salgari, apro- veitamos para referir também, à laia de aditamento, uma versão do mesmo livro publicada pela Livraria Romano Torres, em 1952, com o título “Sandokan tem um rival”, traduzido pouco à letra (o que era prática frequente nas obras dessa editora). Trata-se da 3ª edição, com um texto revisto e condensado por Leyguarda Ferreira e uma colorida capa de Júlio Amorim, ambos colaboradores habituais da empresa. A referência a Sandokan justificava-se por esse volume fazer parte de uma nova série, muito popular, consagrada às aventuras do célebre pirata da Malásia, outra grande criação de Emilio Salgari.

Obras-primas: O Elefante Sagrado (L’Elefante Sacro) – 3

Tigre Caprioli911Eis mais quatro páginas desta maravilhosa aventura ilustrada por Franco Caprioli, que a partir daqui se desenrola nas exóticas e misteriosas regiões da Índia, entre marajás, palácios faustosos, templos dedicados a deuses sangrentos e florestas onde espreitam tigres, panteras… e thugs, membros de uma fanática seita, tão furtivos e ameaçadores como os animais selvagens que rondam quem se atreve a penetrar na selva.

A Índia do século XIX, cheia de segredos, de sortilégios e de perigos, símbolo do exotismo e da fascinação do enigmático Oriente, era um dos cenários preferidos de dois escritores famosos, Emilio Salgari e Luigi Motta — este, aliás, responsável pelo argumento que Caprioli, no auge da sua carreira, ilustrou de forma soberba, a tal ponto que muitos leitores (entre os quais me incluo) consideram L’Elefante Sacro uma das suas maiores obras-primas.

Ídolo Caprioli 912Quero, por isso, chamar a atenção para um pormenor que mostra a grande diferença que existia, sobretudo a nível gráfico, entre o Il Vittorioso e o Cavaleiro Andante: neste, por causa do formato mais reduzido, era hábito, com demasiada frequência, fazer cortes nas pranchas, normalmente em altura, mutilando os desenhos numa superfície de vários milímetros (como se nota no rodapé da última página deste grupo de quatro). Mas poucas reclamações devem ter chegado à redacção, porque os leitores mais jovens, a “arraia miúda” que formava o grosso das hostes, não se apercebiam dessas falhas ou não lhes ligavam grande importância.

Os problemas gráficos e de ordem estética eram comuns no Cavaleiro Andante (e noutras publicações suas congéneres), estendendo-se às capas quando nelas aparecia uma página inteira de BD em vez de uma ilustração, pois o cabeçalho com o título da revista ocupava muito espaço, obrigando à supressão de uma vinheta, no todo ou em parte, disso se ressentindo, é claro, a obra do desenhador. Tal acontecia também na contracapa, onde uma das últimas vinhetas ficava sempre incompleta por causa do cupão com um número (correspondente à tiragem) que habilitava ao sorteio de aliciantes prémios. Nem “O Elefante Sagrado” escapou a esse cupão de mau gosto!

Outros tempos, outros hábitos, outro (menor) rigor… e outras formas de promover o interesse e a fidelidade do público juvenil.

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Tempestades e Naufrágios

Caprioli (foto)Continuamos a publicar neste blogue uma das histórias de Caprioli de ambiente mais exótico e aventuroso, L’Elefante Sacro (O Elefante Sagrado), que o Cava- leiro Andante deu à estampa a partir do seu primeiro número, chegado às bancas em 5 de Janeiro de 1952, iniciando assim uma relação com os leitores portugueses que se tornou tão forte como o fascínio que o estilo harmonioso do mestre italiano e o fundo moralista das suas obras exercia sobre o espírito de muitos jovens.

Era quase impossível ficar indiferente à beleza estética, à serena harmonia (onde vibrava, porém, um ritmo épico), ao elã aventuroso e ao apelo romântico de uma fantasia avant la lettre, que procurava conjugar o puro divertimento com uma noção poética e didáctica transmitida de forma directa, caprioli-vinheta tempestade copysem quaisquer reservas, como se a BD fosse para Caprioli um meio ideal de revelar aos jovens a sua pró- pria visão do mundo.

Era difícil também resistir ao impacto de páginas recheadas de intenso dramatismo, como aquelas em que o jovem Rudi (prota- gonista de “O Elefante Sagrado”) enfrentava pela primeira vez as tormentas oceânicas, assistindo ao afundamento do belo navio onde embarcara por acaso e ao fim trágico dos seus companheiros. De facto, seria ele o único sobrevivente do naufrágio, depois de uma noite de angústia passada no mar, à mercê dos esqualos atraídos pela tentação de uma presa fácil. Para os leitores, essas cenas representavam uma autêntica lição de coragem e de resistência, extensiva a outras experiências que o destino frequentemente reserva aos que, na idade dos sonhos juvenis, como Rudi (ou Ângelo, nome com que foi baptizado no Cavaleiro Andante), ainda tacteiam o seu futuro.

Mompeo (RI), 1934, em traje tolstojanoNinguém como Caprioli soube re- tratar, através da sua arte magistral, as inclemências da natureza, em particular dos vastos oceanos onde situou grande parte das suas histórias, ao ponto de ter sido cognominado “o poeta do mar”. Mas à violência dos elementos contrapunha sempre a humanidade dos sentimentos e uma arreigada fé na razão e na providência que amparavam os mais fracos e indefesos, assim como os mais indómitos e corajosos, mesmo nas situações extremas em que toda a esperança, todas as hipóteses de salvação, pareciam perdidas.

Além de humanista, Caprioli era profundamente religioso e a sua crença nos valores filosóficos de uma moral cristã (e tolstoiana), num idealismo que enaltecia os feitos dos justos e dos sonhadores, dos pioneiros e dos audazes, dos abnegados e dos altruístas (símbolos dos heróis das suas histórias, tão modelares como os de Tolstoi em Guerra e Paz), perpassa na mensagem que quis transmitir aos jovens, como fulcro da tarefa artística a que se dedicou com êxito, durante largos anos, nas páginas do Il Vittorioso, do Topolino e de muitas outras revistas.

 

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