Tempestades e Naufrágios

Caprioli (foto)Continuamos a publicar neste blogue uma das histórias de Caprioli de ambiente mais exótico e aventuroso, L’Elefante Sacro (O Elefante Sagrado), que o Cava- leiro Andante deu à estampa a partir do seu primeiro número, chegado às bancas em 5 de Janeiro de 1952, iniciando assim uma relação com os leitores portugueses que se tornou tão forte como o fascínio que o estilo harmonioso do mestre italiano e o fundo moralista das suas obras exercia sobre o espírito de muitos jovens.

Era quase impossível ficar indiferente à beleza estética, à serena harmonia (onde vibrava, porém, um ritmo épico), ao elã aventuroso e ao apelo romântico de uma fantasia avant la lettre, que procurava conjugar o puro divertimento com uma noção poética e didáctica transmitida de forma directa, caprioli-vinheta tempestade copysem quaisquer reservas, como se a BD fosse para Caprioli um meio ideal de revelar aos jovens a sua pró- pria visão do mundo.

Era difícil também resistir ao impacto de páginas recheadas de intenso dramatismo, como aquelas em que o jovem Rudi (prota- gonista de “O Elefante Sagrado”) enfrentava pela primeira vez as tormentas oceânicas, assistindo ao afundamento do belo navio onde embarcara por acaso e ao fim trágico dos seus companheiros. De facto, seria ele o único sobrevivente do naufrágio, depois de uma noite de angústia passada no mar, à mercê dos esqualos atraídos pela tentação de uma presa fácil. Para os leitores, essas cenas representavam uma autêntica lição de coragem e de resistência, extensiva a outras experiências que o destino frequentemente reserva aos que, na idade dos sonhos juvenis, como Rudi (ou Ângelo, nome com que foi baptizado no Cavaleiro Andante), ainda tacteiam o seu futuro.

Mompeo (RI), 1934, em traje tolstojanoNinguém como Caprioli soube re- tratar, através da sua arte magistral, as inclemências da natureza, em particular dos vastos oceanos onde situou grande parte das suas histórias, ao ponto de ter sido cognominado “o poeta do mar”. Mas à violência dos elementos contrapunha sempre a humanidade dos sentimentos e uma arreigada fé na razão e na providência que amparavam os mais fracos e indefesos, assim como os mais indómitos e corajosos, mesmo nas situações extremas em que toda a esperança, todas as hipóteses de salvação, pareciam perdidas.

Além de humanista, Caprioli era profundamente religioso e a sua crença nos valores filosóficos de uma moral cristã (e tolstoiana), num idealismo que enaltecia os feitos dos justos e dos sonhadores, dos pioneiros e dos audazes, dos abnegados e dos altruístas (símbolos dos heróis das suas histórias, tão modelares como os de Tolstoi em Guerra e Paz), perpassa na mensagem que quis transmitir aos jovens, como fulcro da tarefa artística a que se dedicou com êxito, durante largos anos, nas páginas do Il Vittorioso, do Topolino e de muitas outras revistas.

 

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