O Presépio na arte de Caprioli

NATALVITT

Esta magnífica ilustração de Franco Caprioli — que nos foi gentilmente enviada por sua filha Fulvia, a quem agradecemos tão generosa prova de amizade — revela uma faceta quase desconhecida do grande mestre italiano, como ilustrador de contos infantis e de poemas de Natal.

Trata-se, obviamente, de uma imagem inédita em revistas portuguesas, que este blogue tem a honra de divulgar em primeira mão aos seus habituais visitantes, fãs de BD ou simples curiosos, que não podem ficar indiferentes à poética beleza de todas as criações de Caprioli.

Esta página, em que a harmonia artística se conjuga, de forma curiosa, com a candura evangélica das cenas celestiais — ilustrando um poema de Vittorio Emanuele Bravetta, intitulado La Stela e la Zampogna (A Estrela e a Gaita de Foles) —, foi realizada para o nº 52 (ano XII), 25 de Dezembro de 1948, do semanário de inspiração católica Il Vittorioso, onde Caprioli publicou algumas das suas mais celebradas obras-primas.  

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Um presépio maravilhoso

Presépio da Fulvia 1

Este belo Presépio em terracota, povoado por inúmeras figuras tradicionais, foi exposto por Fulvia Caprioli na sua página do Facebook. Fulvia, ilustradora e pintora de reais méritos, é filha do grande mestre da BD italiana Franco Caprioli (1912-1974), a quem a nossa Loja de Papel dedicou este blogue em honra da sua arte primorosa e das inúmeras histórias publicadas também em revistas portuguesas, com destaque para Cavaleiro Andante, Zorro, Jornal do Cuto, Mundo de Aventuras Especial e Jornal da BD.

Na sua casa de Roma, Fulvia guarda vários presépios com objectos em terracota que chegam a atingir 20 cms de altura, representando uma infinidade de figuras da memorabília popular — casas, fornos, fontes, moinhos, cascatas, palmeiras, animais, etc. —, amorosamente coleccionados, durante anos, ao calcorrear os mercados de Natal da Praça Navona e do norte de Itália. Infelizmente, não pode expô-los a todos ao mesmo tempo, na sua sala, por falta de espaço.

Presépio da Fulvia 2

Para Fulvia, como para muitos de nós, as imagens do Presépio constituem uma das mais belas recordações da infância e dos Natais que vivemos, nessa época de feliz inocência, ao som das canções tradicionais e dos coros familiares. Mas são também, no caso de Fulvia, outra forma de manter viva a memória do Pai, que tinha como ela um carinho especial pela quadra mais festiva do ano e pelas imagens do Presépio, impregnadas de encanto e de magia.

Como as próprias histórias de Caprioli, profundamente poéticas e humanistas e que também nunca se apagarão da nossa memória…

 

Obras-primas: Os Pescadores de Pérolas (I Pescatori di Perle) – 2

Caprioli - Il Vittorioso nº 9Entre as aventuras ilustradas do Cavaleiro Andante, o novo semanário da Empresa Nacional de Publicidade, nascido em 5/1/1952 — que introduziram os leitores no vasto e heterogéneo universo das HQ europeias, em pleno desabrochar de experi- ências gráficas e narrativas que rompiam com os condicionalis- mos do passado —, algumas se impuseram, desde logo, pela riqueza da vertente estética e a singularidade dos temas e das personagens, factores aliados a um nível artístico altamente sugestivo e a uma moral cristã que induzia aos bons costumes e ao respeito por outros povos, raças e religiões.

Não tenho dúvidas de que, entre as histórias que melhor exaltam esse propósito, se incluem as duas criações de Franco Caprioli (oriundas do semanário católico Il Vittorioso) que iniciaram a relação dos leitores do Cavaleiro Andante com o seu estilo límpido e harmonioso: “O Elefante Sagrado” e “Os Pescadores de Pérolas”, duas aventuras de ambiente exótico, com fortes influências dos célebres romances de Emilio Salgari, a primeira (já reproduzida neste blogue) passada entre veleiros e tufões, tigres e rajás, ídolos e templos indianos, e a segunda desenrolada em Ceilão, no século XVII, quando a “lusa grei” ainda dominava essa grande ilha do Índico, hoje com o nome de Sri Lanka.

Durante os dez anos de existência do Cavaleiro Andante (de 1952 a 1962), Caprioli tornou-se uma das presenças mais assíduas na revista, num exemplo paradig- mático de popularidade associada ao primor artístico. E os louvores que obteve entre nós com as suas primeiras criações de grande beleza figurativa e com outros êxitos inspirados na mesma matriz de realismo poético — como “Falcões do Mar”, “O Fugitivo da Torre Vermelha”, “Kim”, “Dakota Jim” e “A Águia dos Mares” —, abriram caminho a uma plêiade de artistas italianos, sem grandes afinidades com o seu estilo, mas dotados de um talento tão exuberante como os dos melhores desenhadores franco-belgas, com cujos trabalhos ombrearam, durante anos, nas páginas do Cavaleiro Andante. E que, por isso, merecem ter também um lugar neste blogue dedicado ao seu ilustre companheiro de redacção.

O primeiro episódio da história em epígrafe pode ser visto aqui.

Os Pescadores de Pérolas  5 Os Pescadores de Pérolas  - 6

caprioli - Pescadores de pérolas 7 491

caprioli - Pescadores de pérolas 8 492

I Pescatori di perle - 5

I Pescatori di perle - 6

Caprioli - I Pescatori di Perle - 7

Caprioli - I Pescatori di Perle 8

“I gatti” (os gatos) na arte de Caprioli – 1

Franco Caprioli, duplo-retrato-franco-e-francesca1981um dos mais ilustres autores da banda desenhada italiana e mundial, nasceu em Mompeo, província de Rieti, no dia 5 de Abril de 1912. Desde cedo, manifestou grande paixão pelas coisas do mar (talvez influenciado por um tio, capitão de fragata), o que, aliado ao jeito para o desenho, originou um caso curioso: o pequeno Caprioli começou a desenhar o mar mesmo antes de o ter visto pela primeira vez! Esta paixão manteve-a ao longo da vida, o que naturalmente se reflectiu na sua obra, onde a temática marítima e os cenários exóticos tiveram um papel muito relevante. Foi por isso que ficou conhecido como “o poeta do mar”.

A sua “imagem de marca” foi a utilização do “pontilhado” (técnica que consiste em desenhar pontos muito próximos uns dos outros, para dar a ilusão de sombras ou de relevo), que aplicou com mestria nas suas histórias.

A obra de Caprioli – imensa e magnífica – espraiou-se por revistas italianas mas também inglesas, francesas, belgas, espanholas, portuguesas e brasileiras. Em Itália, trabalhou para as revistas Argentovivo, Topolino, Il Corriere dei Piccoli e sobretudo Il Vittorioso e Il Giornalino.

No pós-guerra, desenhou no Giramondo uma das suas melhores criações, L’Isola Tabu, e no Topolino I Fanti di Picche. No Il Vittorioso publicou inúmeras histórias, como L’Elefante Sacro, I Pescatori di Perle, Kim, Una Strana Avventura, Dakota Jim, L’Ussaro della Morte, Aquila Maris, etc… No final da sua carreira trabalhou apenas para Il Giornalino, realizando adaptações de alguns dos maiores clássicos de Jules Verne, como “A Ilha Misteriosa”, “Miguel Strogoff”, “Os Filhos do Capitão Grant” e “Um Capitão de 15 Anos”, editadas também em Portugal nos anos 70 e 80, em álbuns e revistas como o Jornal da BD.

“Os Filhos do Capitão Grant” foi mesmo a última história em que o artista trabalhou, deixando-a inacabada devido ao seu súbito falecimento em Roma, no dia 8 de Fevereiro de 1974. Não fizera ainda 62 anos.

Caprioli amava os animais e retratou várias vezes o seu cão Toby. Mas também desenhou gatos… Seleccionámos várias páginas e vinhetas de duas histórias que se seguem e complementam uma à outra, publicadas em Itália no semanário Topolino, em 1940-41: “Fra I Canachi di Matareva” e “L’Isola Giovedi”. A título de curiosidade, refira-se que a 1ª parte desta série surgiu também em Portugal, no Álbum do Cavaleiro Andante nº 54.

Eis alguns extractos do primeiro desses episódios, desenrolados nas exóticas paragens do Pacífico, que tanto fascinavam Caprioli (e os seus leitores).

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Le chat dans tous ses états - Gatos... gatinhos e gatarrões! de Catherine Labey

Pour les fans de chats e de tous les animaux en général - Para os amantes de gatos e de todos os animais em geral

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Largo dos Correios, Portalegre

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