“È morto il disegnatore del mare” – 2

Caprioli (auto-retrato)Quando faleceu prematuramente, deixando todos os seus admiradores, familares e amigos em estado de choque, Caprioli tinha em curso mais uma história baseada num romance de Jules Verne, Os Filhos do Capitão Grant, que saía regularmente, em capítulos de meia dúzia de páginas, no mais antigo semanário juvenil italiano dessa época, o Il Giornalino.

Caprioli - Um capitão de 15 anos040Para Caprioli, esta revista significara, no início dos anos 70, o trampolim para uma nova e florescente etapa da sua carreira, em que se dedicou basicamente à adapta- ção de obras literárias, com “teimosa” incidência nos romances de Jules Verne, cujo universo romântico e aventuroso, e ao mesmo tempo de cunho visionário e científico, particularmente o seduzia. Saíram, assim, da sua velha prancheta de desenho, como que por efeito de um novo e mágico sortilégio, algumas incontestáveis obras-primas: A Ilha Misteriosa, Um Capitão de 15 Anos e Miguel Strogoff — em que reluzia, mais perfeita do que nunca, a sua “jóia da coroa”, a técnica do “pontilhado” que lhe dera tanta fama —, a que se seguiu Os Filhos do Capitão Grant, interrompida pela sua morte em 8 de Fevereiro de 1974, quando já pouco faltava para a acabar.

As últimas páginas desenhadas por Caprioli, incluindo a que deixou incompleta (mais de metade só com textos), apareceram no Il Giornalino em Maio desse ano, com uma nota em que se lamentava o desaparecimento do famoso mestre e se prestava homenagem à sua memória. O último capítulo foi realizado por Gino D’António, outro grande ilustrador italiano, mas com um estilo dinâmico diame- tralmente oposto ao de Caprioli (como atesta a página seguinte).

Caprioli - Capitão Grant - D'Antonio 041

Nesse mês de Maio de 1974, eu entrei para a Agência Portuguesa de Revistas (APR), como coordenador do Mundo de Aventuras (2ª série), onde já colaborava fazendo traduções e escrevendo contos e artigos sobre heróis da BD. Foi o início de uma nova carreira profissional, num meio que nunca conhecera por dentro (mas que me fascinava desde há muito), depois de renunciar à ideia de regressar a Angola, onde era funcionário do Instituto do Café. Uma carreira que se prolongaria até aos últimos dias do Mundo de Aventuras e da própria APR, embora tivesse continuado ligada à BD, tomando depois outros rumos.

Caprioli - Il Giornalino 042Como andava sempre em busca de novidades, farejando aqui e ali nas livrarias, lojas e quiosques, encontrei um dia, num escaparate à porta de uma tabacaria dos Restauradores (que também vendia jornais e revistas), um número do Il Giornalino¸ precisamente o que publicava, para minha grande surpresa, as últimas páginas desenhadas por Caprioli, de cujo faleci- mento só tinham chegado alguns rumores ao nosso pequeno mundo bedéfilo.

São essas magníficas páginas que reproduzimos também neste post, embora não sejam totalmente desconhecidas dos leitores portugueses, por intermédio do Jornal da BD e de um álbum publicado pela extinta editora Publica, já há mais de três décadas. Devo acrescentar que, na mesma tabacaria, encontrei também o número seguinte do Il Giornalino, com a conclusão da odisseia d’Os Filhos do Capitão Grant, pelo traço de Gino D’Antonio.

E embora goste muito deste autor, desde os tempos de juventude em que lia as suas histórias no Cavaleiro Andante (algumas das quais lembrarei para sempre, como “O Forte do Huron” e “A Mocidade do Rei Artur”), confesso que, dessa vez, os seus desenhos não me mitigaram a saudade de Jules Verne visto pela harmoniosa “lupa” e pelo primor artístico de Caprioli.

Caprioli - Filhos Cap Grant 6 049

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“È morto il disegnatore del mare” – 1

FrancoCaprioli_par_TarquinioCom este título fúnebre, a revista Il Fumetto, uma das mais antigas dedicadas ao estudo, à análise e à divulgação histórica da 9ª Arte, publicou em Março de 1974 um artigo de Mario Basari, comentando o brusco desaparecimento de Franco Caprioli, cerca de um mês antes, e a importância da obra que o genial mestre italiano realizou durante quase quarenta anos de intensa e profícua actividade, numa carreira recheada de obras-primas, destinadas a um público formado por jovens e por amantes da arte e da cultura em geral.

Basari tinha sido redactor do Il Vittorioso, uma das revistas para rapazes onde Caprioli iniciou o seu percurso de ilustrador de fumetti (ou histórias em quadradinhos), e conhecia, portanto, bem a sua personalidade e as suas aptidões artísticas. No artigo onde a sua memória e a sua obra extensa e notável são homenageadas, destaca-se também a magnífica ilustração de Sante D’Amico, outro autor italiano que nutria profunda admiração por Caprioli, embora pertencesse, como Basari, a uma geração diferente, mais jovem e adepta de conceitos e métodos mais vanguardistas.

Os grandes talentos, porém, são como que intemporais e Caprioli já em vida gozava desse estatuto, reconhecido por todos os seus pares como um dos pioneiros da 9ª Arte italiana que mais tinham contribuído para o seu desenvol- vimento e para a sua consagração artística, e que no imediato pós-guerra prosseguiu esse caminho, juntando-se a uma nova e criativa geração que procurou relançar as bases de uma cultura genuinamente italiana, liberta de amarras ideológicas (como as que lhe tinham sido impostas pelo fascismo), em que seriam também beneficiados os espíritos mais juvenis, sedentos de novidades… isto é, abrindo as portas a um novo estilo de jornalismo com histórias em imagens (onde os extensos textos narrativos dariam lugar aos mais aprazíveis balões com diálogos, ou fumetti).

Para Mario Basari, Caprioli era sobretudo o mestre que o tinha fascinado com as suas paisagens e as suas histórias desenroladas em mares distantes e revoltos… o desenhador Il Fumetto 13 - Ilustração - A034-Recoveredque retratava os oceanos como se tivesse nascido agarrado ao leme de uma escuna, quando na realidade crescera e vivera, desde sempre, numa região montanhosa muito distante do mar, onde transformara a casa paterna num refúgio e num santuário, sob o signo de uma precoce vocação artística que desabrochou nesse mundo isolado, arreba- tando-o, nas asas da fantasia, até às paragens mais estranhas e exóticas.

O excelente artigo de Mario Basari, que seguidamente reproduzimos, foi extraído do nº 13 de Il Fumetto (1ª série), editado pela ANAF (Associazione Nazionale Amici del Fumetto). Caprioli deixou o mundo dos vivos, vítima de um fulminante ataque cardíaco, em 8 de Fevereiro desse ano. Dois meses depois, em 5 de Abril, festejaria o seu 62º aniversário…

Na página ao lado deste artigo figura uma bela ilustração de Caprioli, dedicada ao seu grande amigo Sante D’Amico, que colaborava também no Il Vittorioso, tendo por isso acompanhado de perto os últimos anos da carreira do veterano mestre no mais popular semanário juvenil dessa época.

Il Fumetto 13 - Artigo 1

Caprioli ilustrador – 1

Caprioli (auto-retrato)No início da sua longa e prolífica carreira, Caprioli alimentou o sonho de se tornar ilustrador e pintor, antes de ter sentido a vocação (e o desejo) de se dedicar aos fumetti, nome que em Itália se dá, desde há muito, às histórias aos quadradinhos (o termo banda desenhada ainda não pegou neste país, onde a cultura e a arte fazem parte do seu rico património histórico, como em nenhum outro lugar do mundo).

Desconhecida da maioria dos seus inúmeros admiradores, a obra de Caprioli nas vertentes que primeiro despertaram uma intensa paixão artística, a que ficou ligado toda a vida, é quase tão vasta como a que produziu para algumas das mais famosas revistas juvenis do seu tempo, mas permanece, em grande parte, num semi-ineditismo, dispersa por livros, revistas, jornais e publicações várias que hoje são cada vez mais difíceis de encontrar. 

Caprioli (Viaggio preistoria)Sua filha Fúlvia tem feito um notável e eficiente trabalho de divulgação desses valiosos trabalhos, dignos do renome que envolve outras obras artísticas do genial mestre italiano, sobretudo as histórias que produziu, no período áureo da sua carreira, para revistas como Topolino e Il Vittorioso, e mais tarde para o Il Giornalino. Uma das publicações em que se pode admirar a pujança do seu talento como ilustrador é um livro (1ª edição, 1965) inti- tulado Viaggio attraverso la preistoria, com texto de Mario Bianchini, que Caprioli foi incumbido de tornar mais acessível e atractivo para os leigos, recheando-o de imagens de apurado efeito didáctico e artístico, aliado a uma minúcia descritiva inspirada nos seus vastos conhe- cimentos de antropologia, paleontologia, arqueologia e de outras ciências.

Uma dessas ilustrações, de rara beleza e requinte estético, serviu de capa a um fanzine que o autor destas linhas editou em finais de 1995, com o título Cadernos de Banda Desenhada (2ª série), e de cujo conteúdo já demos pormenorizada nota neste blogue (ver a rubrica Antologia). Além da harmonia e perfeição do seu estilo clássico, Caprioli tinha um dom especial que cultivava com esponta- neidade, retratando a natureza e os seus elementos por um prisma poético e realista e suavizando quase sempre a violência com um véu de sensual beleza plástica, mesmo quando essas cenas despertavam nos leitores emoções mais fortes e contraditórias.

O mesmo invulgar conceito artístico transparece na ilustração acima reproduzida, em que avulta a figura escultural da rapariga caída por terra no 1º plano, com um aspecto tão sereno como se tivesse adormecido… quando o que está explícito na imagem é a violência da guerra, a crueza dos bárbaros invasores e a tragédia que se abate sobre as suas vítimas. Não há nesta obra nenhum “atentado” estético, pois a sua harmonia de linhas e de composição é perfeita e admirável, apenas uma nítida contradição formal, que a torna ainda mais singular e digna de pertinente análise. Para Caprioli a forma era superior ao conteúdo.

Quando a publicámos no referido fanzine (que só teve um número, dedicado a uma das melhores histórias da “idade de ouro” de Caprioli), Phobos 017socorremo-nos de uma revista francesa que também a escolheu como ilustração de capa, certamente por se harmonizar com a temática que percorria todas as suas páginas: a heroïc fantasy, com relevo para as seminais obras de Robert Erwin Howard, criador de Conan, o Bárbaro, e de Barry Windsor Smith, um dos melhores desenhadores que recriaram esta mítica personagem no universo dos comic books.

Não sabemos se a tal revista francesa (Les hordes de Phobos) teve mais sorte do que o nosso modesto fanzine, mas não deixa de ser curioso que, a par dos ilustradores em foco no seu sumário, de estilo tão vigoroso como a prosa e as épicas histórias de Robert E. Howard, Caprioli figure em lugar privilegiado, assumindo também um papel de destaque num género cuja rudeza, barbaridade e violência destoavam por completo dos seus sentimentos e dos cânones artísticos por que sempre se regeu… mesmo quando, em certas épocas mais remotas, foi dominado por uma insólita e provocadora “febre” satírica!

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