Caprioli ilustrador – 1

Caprioli (auto-retrato)No início da sua longa e prolífica carreira, Caprioli alimentou o sonho de se tornar ilustrador e pintor, antes de ter sentido a vocação (e o desejo) de se dedicar aos fumetti, nome que em Itália se dá, desde há muito, às histórias aos quadradinhos (o termo banda desenhada ainda não pegou neste país, onde a cultura e a arte fazem parte do seu rico património histórico, como em nenhum outro lugar do mundo).

Desconhecida da maioria dos seus inúmeros admiradores, a obra de Caprioli nas vertentes que primeiro despertaram uma intensa paixão artística, a que ficou ligado toda a vida, é quase tão vasta como a que produziu para algumas das mais famosas revistas juvenis do seu tempo, mas permanece, em grande parte, num semi-ineditismo, dispersa por livros, revistas, jornais e publicações várias que hoje são cada vez mais difíceis de encontrar. 

Caprioli (Viaggio preistoria)Sua filha Fúlvia tem feito um notável e eficiente trabalho de divulgação desses valiosos trabalhos, dignos do renome que envolve outras obras artísticas do genial mestre italiano, sobretudo as histórias que produziu, no período áureo da sua carreira, para revistas como Topolino e Il Vittorioso, e mais tarde para o Il Giornalino. Uma das publicações em que se pode admirar a pujança do seu talento como ilustrador é um livro (1ª edição, 1965) inti- tulado Viaggio attraverso la preistoria, com texto de Mario Bianchini, que Caprioli foi incumbido de tornar mais acessível e atractivo para os leigos, recheando-o de imagens de apurado efeito didáctico e artístico, aliado a uma minúcia descritiva inspirada nos seus vastos conhe- cimentos de antropologia, paleontologia, arqueologia e de outras ciências.

Uma dessas ilustrações, de rara beleza e requinte estético, serviu de capa a um fanzine que o autor destas linhas editou em finais de 1995, com o título Cadernos de Banda Desenhada (2ª série), e de cujo conteúdo já demos pormenorizada nota neste blogue (ver a rubrica Antologia). Além da harmonia e perfeição do seu estilo clássico, Caprioli tinha um dom especial que cultivava com esponta- neidade, retratando a natureza e os seus elementos por um prisma poético e realista e suavizando quase sempre a violência com um véu de sensual beleza plástica, mesmo quando essas cenas despertavam nos leitores emoções mais fortes e contraditórias.

O mesmo invulgar conceito artístico transparece na ilustração acima reproduzida, em que avulta a figura escultural da rapariga caída por terra no 1º plano, com um aspecto tão sereno como se tivesse adormecido… quando o que está explícito na imagem é a violência da guerra, a crueza dos bárbaros invasores e a tragédia que se abate sobre as suas vítimas. Não há nesta obra nenhum “atentado” estético, pois a sua harmonia de linhas e de composição é perfeita e admirável, apenas uma nítida contradição formal, que a torna ainda mais singular e digna de pertinente análise. Para Caprioli a forma era superior ao conteúdo.

Quando a publicámos no referido fanzine (que só teve um número, dedicado a uma das melhores histórias da “idade de ouro” de Caprioli), Phobos 017socorremo-nos de uma revista francesa que também a escolheu como ilustração de capa, certamente por se harmonizar com a temática que percorria todas as suas páginas: a heroïc fantasy, com relevo para as seminais obras de Robert Erwin Howard, criador de Conan, o Bárbaro, e de Barry Windsor Smith, um dos melhores desenhadores que recriaram esta mítica personagem no universo dos comic books.

Não sabemos se a tal revista francesa (Les hordes de Phobos) teve mais sorte do que o nosso modesto fanzine, mas não deixa de ser curioso que, a par dos ilustradores em foco no seu sumário, de estilo tão vigoroso como a prosa e as épicas histórias de Robert E. Howard, Caprioli figure em lugar privilegiado, assumindo também um papel de destaque num género cuja rudeza, barbaridade e violência destoavam por completo dos seus sentimentos e dos cânones artísticos por que sempre se regeu… mesmo quando, em certas épocas mais remotas, foi dominado por uma insólita e provocadora “febre” satírica!

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