“I gatti” (os gatos) na arte de Caprioli – 4

Apresentamos hoje, il-gatto-con-gli-stivali2com a gentil colaboração de Fulvia Caprioli, filha do grande mestre italiano, uma faceta diferente e ainda pouco conhecida do seu labor artístico — duas ilustrações para o famoso conto de Perrault «O Gato das Botas», em que toda a delicadeza e elegância do traço são realçadas pelo equilibrado tratamento a preto e branco, sem prejuízo da cor.

Caprioli ilustrou outras fábulas e contos tradicionais infantis, numa época (1946) em que o seu renome como autor de fumetti, ou histórias aos quadradinhos, começava a despontar. Alguns desses trabalhos têm sido pacientemente recuperados e revelados à grande legião de admiradores de Caprioli por sua filha Fulvia, no dedicado propósito de resgatar do esquecimento obras cujo rasto já quase se perdeu, mas que também fazem parte do elo criativo que fomentou a extraordinária carreira de um dos maiores desenhadores do seu tempo.

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Caprioli e a Pré-História – 1

Caprioli (auto-retrato)Notável pintor, ilustrador e homem de cultura, Caprioli escolheu os fumetti por vocação (como escreveu no seu diário) e como forma de materializar os seus sonhos e os de muitos jovens, cujos anseios de aventura, liberdade e fantasia partilhava. Mas, não obstante a sua intensa actividade e o alto nível artístico da sua obra, esta só foi reconhecida oficialmente em 1973, um ano antes da sua morte, quando em Génova, nas 3.as Giornate del Fumetto e dell’ Illustrazione, um júri de profissionais lhe concedeu o prémio Il Cartoonist, como melhor desenhador italiano.

Foi assim que o nome e a obra de Caprioli voltaram à ribalta, merecendo a atenção dos especialistas, do público e de editores como Camilo Conti, que republicou várias das suas histórias em álbuns de grande formato, reproduzindo fielmente as cores originais do Il Vittorioso.

Homenagem tardia mas justa, que veio coroar uma fecunda carreira devotada à pintura, ao desenho, à BD e ao estudo da Paleontologia e da Antropologia, duas das suas maiores paixões, bem patentes no tema de fundo e no conceito artístico e filosófico de “Una strana avventura” (Il Vittorioso, 1954, 1962), viagem onírica a um passado remoto, vivida por três rapazes e pelo seu professor de História, em que Caprioli, no auge da sua forma criativa, assumiu simbolicamente o papel do mestre cujas lições “ao vivo” empolgavam os alunos. Muitos leitores do Cavaleiro Andante, interessados pelo estudo da Pré-História, nunca devem ter esquecido esta “estranha aventura”.

Estranha aventura - pag 11 e 12

Aliás, o mundo pré-histórico já estava bem representado numa das suas primeiras criações, ”La tribù degli uomini dei fiume” (Argentovivo, 1937), em que dois jovens descendentes do homem de Neandertal faziam também uma expedição aventurosa, enfrentando os mistérios e os perigos da natureza primitiva.

É essa história, apenas com cinco páginas (e ainda com textos didascálicos, como era prática corrente no Argentovivo), que seguidamente reproduzimos da revista italiana Exploit Comics nº 40 (Maio de 1987), onde foi pela primeira vez reeditada. Em breve voltaremos a abordar este tema, que fascinava Caprioli e lhe inspirou algumas das melhores ilustrações de toda a sua obra.

A tribo do rio 1 e 2

A tribo do rio 3 e 4

A tribo do rio 5 e 6

A tribo do rio 7 e 8 224

A tribo do rio 9 e 10

Sendo esta uma das primeiras histórias desenhadas por Caprioli (no ano em que iniciou a sua carreira como autor de fumetti), é natural que o seu estilo gráfico revele ainda algumas “fraquezas”; mas basta compará-la com as que publicou posteriormente noutras revistas, onde tinha mais espaço e mais liberdade estética, para apreciar e valorizar os constantes progressos do seu estilo, cuja original técnica do pontilhado começava a florescer, como produto de uma profunda evolução artística que se desenvolveu num período bastante curto.

Autobiografia de Caprioli

Mompeo (RI), 1934, em traje tolstojanoNascido em 5 de Abril de 1912, em Mompeo, região a 70 kms de Roma, Franco Caprioli manifestou desde muito novo, por tradição fa­miliar, a vontade de dedicar-se à pintura, aca­bando por descobrir outro amor, ainda maior e mais genuíno: os fumetti.

É curioso assinalar que, numa carta dirigida ao director do Il Giornalino, revista para a qual traba­lhou intensamente nos últimos anos da sua carreira, Ca­prioli afirmava que tinha sido (e talvez continuasse a ser) «um verdadeiro tolstoiano, seguidor da doutrina ético-social do grande russo, mais actual do que nunca – e diria, até, necessária – hoje, na nossa época de total niilismo e corrup­ção».

Essa prosélita vocação, que começou a perfilhar abertamente ainda na juventude (vestindo-se à moda russa), valeu-lhe, aliás, em pleno re­gime fascista, suspeitas e censuras, o que não o impediu de acolher na sua própria casa, durante a guerra, prisioneiros ingleses e refugiados judeus, sem receio de represálias.  

FIG.3 -RETRATO DE TOLSTOIA doutrina de Liev Tolstoi, bem conhecida ainda hoje, inspirava-se na moral cristã, «com um cuidado vigoroso no domínio sobre as paixões, na não violência, na resistência passiva ao mal, na caridade ilimi­tada pelo próximo, no amor por todos os seres vivos e pela natureza». Caprioli entendia, tal co­mo Ghandi, Albert Schweitzer e outros apósto­los da não-violência, que era preciso pôr em prática essa doutrina e, muito particular- men­te, ensiná-la aos jovens, falando-lhes em termos eloquentes de paz, amor e fraternidade.

Nesse breve testemunho biográfico transparece a sua força moral, o seu carácter antifascista e a razão (ou uma das razões) por que as suas histórias de aventuras, extraordinárias e cheias de fantasia, mas ao mesmo tempo modelos de realismo, obtiveram tanto sucesso entre a juventude. Por serem histórias humanistas e de grande nível, em que a justiça triunfava sempre e se exaltava um ideal de vida digno, os bons sentimentos, a lealdade, o amor, a ami­zade e a coragem.

Comix 5 974Mais tarde, num texto publicado, em 1972, na revista Comics nº 5 (que já aqui citámos), Caprioli referiu-se mais confessionalmente às suas origens familiares, à sua carreira e às suas influências artísticas, aos princípios morais que tinham moldado o seu carácter, indo ao encontro da curiosidade de muitos dos seus leitores, amigos e admiradores e procu- rando também afirmar-se como um não- -activista regido por valores e crenças do passado, num mundo em que a sociedade, o progresso, a ciência e a religião tinham cada vez menos afinidades com o espírito humano e com as suas verdadeiras aspirações.

É esse belo depoimento — em que avultam também a sua vasta cultura, a sua generosidade, a sua fina ironia e o seu amor à família —, que revelamos aos nossos leitores, contribuindo com mais esta achega para um melhor conhe- cimento de uma das mais fascinantes personalidades do mundo da 9ª Arte, apontada como exemplo de inspiração, harmonia, serenidade e beleza artística, dons naturais e coerentes aliados a um profundo sentimento de humanismo e de amor pela natureza que transparece em todas as suas criações. 

(Nota: podem ler o texto de Caprioli, em italiano, ampliando com dois cliques as páginas que se seguem).

Comix 5 - P 29 976

Comix 5 - P31

 

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