Autobiografia de Caprioli

Mompeo (RI), 1934, em traje tolstojanoNascido em 5 de Abril de 1912, em Mompeo, região a 70 kms de Roma, Franco Caprioli manifestou desde muito novo, por tradição fa­miliar, a vontade de dedicar-se à pintura, aca­bando por descobrir outro amor, ainda maior e mais genuíno: os fumetti.

É curioso assinalar que, numa carta dirigida ao director do Il Giornalino, revista para a qual traba­lhou intensamente nos últimos anos da sua carreira, Ca­prioli afirmava que tinha sido (e talvez continuasse a ser) «um verdadeiro tolstoiano, seguidor da doutrina ético-social do grande russo, mais actual do que nunca – e diria, até, necessária – hoje, na nossa época de total niilismo e corrup­ção».

Essa prosélita vocação, que começou a perfilhar abertamente ainda na juventude (vestindo-se à moda russa), valeu-lhe, aliás, em pleno re­gime fascista, suspeitas e censuras, o que não o impediu de acolher na sua própria casa, durante a guerra, prisioneiros ingleses e refugiados judeus, sem receio de represálias.  

FIG.3 -RETRATO DE TOLSTOIA doutrina de Liev Tolstoi, bem conhecida ainda hoje, inspirava-se na moral cristã, «com um cuidado vigoroso no domínio sobre as paixões, na não violência, na resistência passiva ao mal, na caridade ilimi­tada pelo próximo, no amor por todos os seres vivos e pela natureza». Caprioli entendia, tal co­mo Ghandi, Albert Schweitzer e outros apósto­los da não-violência, que era preciso pôr em prática essa doutrina e, muito particular- men­te, ensiná-la aos jovens, falando-lhes em termos eloquentes de paz, amor e fraternidade.

Nesse breve testemunho biográfico transparece a sua força moral, o seu carácter antifascista e a razão (ou uma das razões) por que as suas histórias de aventuras, extraordinárias e cheias de fantasia, mas ao mesmo tempo modelos de realismo, obtiveram tanto sucesso entre a juventude. Por serem histórias humanistas e de grande nível, em que a justiça triunfava sempre e se exaltava um ideal de vida digno, os bons sentimentos, a lealdade, o amor, a ami­zade e a coragem.

Comix 5 974Mais tarde, num texto publicado, em 1972, na revista Comics nº 5 (que já aqui citámos), Caprioli referiu-se mais confessionalmente às suas origens familiares, à sua carreira e às suas influências artísticas, aos princípios morais que tinham moldado o seu carácter, indo ao encontro da curiosidade de muitos dos seus leitores, amigos e admiradores e procu- rando também afirmar-se como um não- -activista regido por valores e crenças do passado, num mundo em que a sociedade, o progresso, a ciência e a religião tinham cada vez menos afinidades com o espírito humano e com as suas verdadeiras aspirações.

É esse belo depoimento — em que avultam também a sua vasta cultura, a sua generosidade, a sua fina ironia e o seu amor à família —, que revelamos aos nossos leitores, contribuindo com mais esta achega para um melhor conhe- cimento de uma das mais fascinantes personalidades do mundo da 9ª Arte, apontada como exemplo de inspiração, harmonia, serenidade e beleza artística, dons naturais e coerentes aliados a um profundo sentimento de humanismo e de amor pela natureza que transparece em todas as suas criações. 

(Nota: podem ler o texto de Caprioli, em italiano, ampliando com dois cliques as páginas que se seguem).

Comix 5 - P 29 976

Comix 5 - P31

 

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