“I gatti” (os gatos) na arte de Caprioli – 5

Para fechar com “chave de ouro”, como soe dizer-se, esta rubrica, eis duas páginas com desenhos em estilo cómico que Fulvia Caprioli teve a gentileza de nos enviar. São inéditas, porque a revista dos anos 40 L’Ometto Pic, que começara a editar este trabalho de Caprioli — um dos raros exemplos do seu aliciante registo humorístico —, acabou logo depois da publicação das duas primeiras pranchas.

O título da história era L’isola incantata (A Ilha Encantada) e tinha como principal atracção uma bruxa chamada Menega, capaz de voar numa vassoura e de se transformar numa gata “faladora”!lisola-incantata-3-inedita12

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Caprioli e os clássicos da literatura – 1

Caprioli - Moby Dick (Spada 1975)Como outros desenhadores de traço inspirado, nascidos numa época em que eram ainda muito vivas as influências do século XIX, Caprioli manifestou, desde jovem, uma grande atracção pelos clássicos literários, começando nos anos 30 a ilustrar obras como Crime e Castigo, de Dostoievsky, e O Livro da Selva, de Rudyard Kipling. Mais tarde, sentiu-se também seduzido por duas obras-primas da literatura de língua inglesa, A Ilha do Tesouro Moby Dick, tendo desta última ilustrado nada menos do que três versões, a primeira em livro, para as edições Mondadori, e as restantes em banda desenhada.

Os leitores portugueses, através do Jornal do Cuto, puderam travar conhecimento com uma delas, publicada originalmente na revista inglesa Ranger, em 1966. A esta curta mas magnífica adaptação do monumental romance de Herman Melville (reeditada posteriormente, em Itália, pela Associazione Amici del Vittorioso), seguiu-se uma versão de maior fôlego, com 80 páginas a cores, mas que só seria dada à estampa, pelas edições Spada, no ano seguinte à morte de Caprioli (1975).

Caprioli Moby Dick capa 328Limitamo-nos hoje a apresentar as primeiras dez ilustrações que o talentoso mestre italiano fez para o livro Il Mostro Bianco, editado pela Mondadori em 1951, e que dão bem a ideia da harmonia e perfeição do seu estilo, num tema em que se destaca, mais uma vez, a presença poética e majestosa do mar e dos belos navios de velas enfunadas pelo sopro heróico das grandes epopeias.

Muito em breve, publicaremos as restantes ilustrações deste livro destinado à juventude, que como é óbvio tem muito menos páginas do que a edição original (um “calhamaço”, cujo volumoso aspecto afastava a maioria dos jovens da sua leitura).

Caprioli e os “Mosqueteiros” da pradaria

 “COWBOYS” DE TODO O MUNDO

Caprioli (Il Vittorioso)

Eis mais uma magnífica ilustração de um Mestre da BD e da arte das imagens, um “virtuoso” em toda a acepção da palavra, que curiosamente também manifestou apreço pelas histórias de cowboys, tendo oferecido aos seus inúmeros admiradores duas ou três aventuras do género, como o memorável Dakota Jim, o “Cowboy” Verde, publicado com grande êxito na revista italiana Il Vitto- rioso e entre nós no Cavaleiro Andante (1954-55). Todos os leitores dessa época, mesmo os que preferiam outros temas,  se lembram ainda desse herói.

Franco Caprioli era um artista versátil e de grande cultura que, além de criar excelentes histórias aos quadradinhos, recheadas de belas imagens (como comprovam as duas páginas reproduzidas mais abaixo, pertencentes às aventuras de Dakota Jim), gostava de ensinar através desse lúdico e eficaz meio de expressão, cujas potencialidades reconhecia e admirava, abordando variadíssimos temas sobre a história, a arte e a cultura dos povos, desde os tempos mais remotos até à época em que viveu. E sempre com um profundo poder de erudição e um perfeccionismo gráfico que deixava os leitores maravilhados.

Caprioli (Dakota Jim)No caso vertente, a primorosa ilustração — com o romântico título, em português, Os Famosos Mosque- teiros da Pradaria” — mostra-nos como eram os cowboys em várias partes do mundo e não apenas no terri- tório onde o seu caris- mático nome nasceu e se tornou mais popular: os Estados Unidos da América. Traduzido em espanhol, o nome dos guardadores de bovinos é vaquero e esses genuínos rivais dos cowboys do Texas, do Kansas e do Arizona encontram-se ainda, em pleno século XXI, nalguns países da América do Sul, onde as imensas pradarias cobertas de erva podem também rivalizar com as da América do Norte.

Alguns dos vaqueros retratados por Caprioli são originários do México, da Bolívia e da Argentina; quanto a estes últimos destacam-se, com especial relevo, pelo seu pitoresco, o trajo, a montada e as “armas” dos gauchos, nome que designa os lendários heróis das pampas. Também na Europa há cowboys, ainda que de outra espécie menos mítica, como o buttero da Toscânia (Itália) e os cossacos das estepes russas.

Estes também gozaram, noutros tempos, de fama universal, graças aos grandes escritores eslavos (Tolstoi, Gogol, Puskin) e ao cinema, e eram comparados aos melhores cavaleiros do mundo, embora se dedicassem mais à guerra do que ao gado. Hoje, já não se ouve falar de cossacos na Ucrânia e noutras antigas regiões da Rússia, cujas tradições mudaram radicalmente.

Posto isto, por que não incluir também nesta nobre selecção dos “Famosos Mosqueteiros da Pradaria” os nossos valentes campinos ribatejanos, que passam a vida a cavalo e sabem lidar com animais mais bravios e corpulentos do que aqueles que os cowboys americanos conduziam pachorrentamente ao longo das suas intermináveis pistas?

Caprioli (Dakota Jim - 2)

Caprioli e a Pré-História – 2

Outra obra notável neste domínio foi o livro intitulado Viaggio attraverso la Preistoria, com texto de Mário Bianchini, que Caprioli ilustrou de uma ponta à outra, investindo nesse projecto mais de dez anos de trabalho.

No entanto, embora o livro merecesse os maiores elogios de muitos especialistas na matéria, acabou por não ser compen- sador do ponto de vista económico e artístico, neste caso por causa do seu aspecto gráfico, com cores (a)berrantes, escolhidas sem critério pelo editor, cujo mau efeito estético e cromático desfigurou por completo as ilustrações (algumas de página inteira ou dupla página) em que Caprioli tanto caprichara, deixando-o profundamente desiludido e desmora- lizado, como revelou num texto biográfico que recentemente publicámos (ver aqui post de 3 de Abril — Autobiografia de Caprioli).

A propósito deste volumoso livro de grande interesse didáctico, cujas magníficas ilustrações têm sido profusamente apresentadas na página do Facebook dedicada a Caprioli por sua filha Fulvia, reproduzimos as palavras que ela nos dirigiu, em resposta a um comentário que esses desenhos (todos eles autênticas obras de arte) nos suscitaram:

«Sim, são desenhos de apurada reconstituição cientí- fica baseada na leitura de muitos livros escritos por famosos peritos de Paleon-tologia, e em longas horas passadas no Jardim Zoológico para observar os movimentos dos elefantes, dos tigres, dos cangurus, dos símios…

A preparação dessas páginas durava muitos anos. Às vezes, reunia-se com o professor Blanc no local onde tinham sido encontrados vestígios pré-históricos, a fim de os observar (é o caso do dente canino do tigre pré-histórico com dentes de sabre, encontrado no monte Peglia-Orvieto (Itália), e do crânio do Neanderthal do Circeo)».

Segundo Fulvia, os textos de Viaggio attraverso la Preistoria, incluindo os das legendas didascálicas, também eram de Caprioli, mas foram confiados para revisão a um consultor da editora, que os refez a seu bel-prazer, estendendo-os por 456 páginas, e acabou por assinar o livro com o seu nome. Sendo assim, estamos perante um autêntico caso de plágio ou, no mínimo, de usurpação de uma obra de índole científica. Não admira que Caprioli, possuidor de uma vasta e ecléctica cultura, tenha ficado profundamente decepcionado com o desfecho de um projecto em que investiu tantos sonhos e tantos anos de trabalho.

Caprioli (grutas)Profunda conhecedora (e incansável divulgadora) da obra de seu pai, Fulvia Caprioli tem feito extensas referências a este livro, nomeadamente num artigo publicado na revista Vitt & Dintorni nº 22 (Abril 2013), órgão informativo da Associazione Amici de Il Vittorioso, a que já aqui demos o devido destaque.

Pelo interesse do tema e porque esse livro nos chegou recentemente às mãos, numa 2ª edição (Abril de 1966, cuja capa reproduzimos no início deste post) com os mesmos defeitos da primeira — exceptuando as ilustrações a preto e branco, em que a ausência da cor realça o seu apurado efeito gráfico, como era desejo de Caprioli , voltamos hoje ao excelente artigo de sua filha Fulvia, reproduzindo-o na íntegra, como merece, para conhecimento de todos os admiradores portugueses da obra do grande mestre italiano.

Vitt Caprioli p.4

Vitt Caprioli p.5

Vitt Caprioli p.6

Vitt Caprioli p.7

Vitt Caprioli p.8

Vitt Caprioli p.9

Vitt Caprioli p.10

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