Caprioli e a censura em Portugal – 1

Publicada em Itália em 1947/48, na revista Topolino, e em Portugal no Álbum do Cavaleiro Andante nº 43 (Dezembro de 1957), a história “O Tigre de Samatra”, uma grande aventura recheada de cenários exóticos e de belas mulheres, cujas peripécias bélicas destoam do pacifismo latente em muitas histórias de Caprioli, sofreu também os efeitos da censura que reinava, nos anos 1950, sobre todas as publicações destinadas à juventude portuguesa.

Uma terna cena amorosa entre dois personagens (nos quais Caprioli se retratou a si próprio e à sua jovem mulher Francesca), que não levantou problemas, como o resto da história, na redacção do Topolino — e note-se que a Itália acabava de sair de uma guerra e de um regime fascista que deixara marcas profundas em toda a sociedade —, foi substituída no Álbum do Cavaleiro Andante por um “cartucho” com texto (de um romantismo pueril, em contraste com a naturalidade e o humor dos diálogos de Caprioli), produzindo um hiato nos desenhos que até os leitores mais ingénuos devem ter achado estranho.

Em contrapartida, cenas de grande violência, como aquela em que o “Tigre de Samatra” chicoteia brutalmente um prisioneiro, golpeando-o no rosto, passaram impunemente pelo crivo da censura. A violência era tolerada, o amor não!

Há ainda mais exemplos de imagens censuradas na 2ª parte desta história, com o título original La Tigre di Sumatra, onde continua a violenta luta entre duas poderosas seitas asiáticas: os “Valetes de Espadas” (I Fanti di Picche), chefiados por um bizarro encapuçado, de seu nome Ta-La-Ta, e os “Dragões Verdes”, em cujas hostes actuam o cruel “Tigre” e a traiçoeira espia Samada.

Para muitos admiradores de Caprioli, “O Tigre de Samatra” é uma espécie de fait-divers na sua obra, pois alia uma elevada percentagem de erotismo, expressa na forma sensual como o grande artista italiano retratou as figuras femininas, como se estivesse a trabalhar para um público mais adulto — o que despertou obviamente o zelo da nossa censura —, a uma trepidante acção que parece inspirada nos serials, os populares filmes de aventuras em episódios exibidos em sessões contínuas, por vezes durante vários dias, obrigando os espectadores mais assíduos a uma autêntica maratona.

Aguardem o próximo post sobre este tema, ainda a propósito desta aventura, do seu enredo bélico (bem documentado na página supra) e dos efeitos da censura nalgumas (belas) imagens de Caprioli, retocadas por mãos inábeis para esconder pormenores pouco chocantes, como decotes e saias curtas!

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