Caprioli, o Poeta do Mar

“O rapaz que vivia longe do mar”

 por Jorge Magalhães

Caprioli (auto-retrato)Nota prévia: As ilustrações que figuram neste artigo foram feitas por Caprioli nos seus “verdes anos” — aos sete, quando ainda não tinha visto o mar, e aos dezasseis, quando embarcou como grumete numa viagem à Líbia. A última é uma pintura a óleo sobre papel, com outra vista de Tripoli. Agradecemos a Fulvia Caprioli, filha do Mestre, a oportunidade que  gentilmente nos concedeu de mostrarmos estas preciosas e inéditas ilustrações aos nossos leitores e amigos.

A Fulvia, cujo aniversário se celebra hoje, dia 28 de Junho, é dedicado também este blogue, que criámos para homenagear a memória do grande desenhador italiano, agradecendo-lhe postu- mamente tantos momentos de encantamento que nos proporcionou e a muitos outros leitores do “Cavaleiro Andante”, que ainda hoje, muitas décadas depois, recordam com emoção essas horas felizes e a deslumbrante beleza do seu poético e harmonioso estilo.

Franco Caprioli nasceu e viveumompeo-ri-1922-copy1 sempre longe do mar. E parece que só o viu pela primeira vez com a idade de 16 anos (numa viagem à Líbia, onde apanhou uma grande desilusão, pois aquele não era o mar com que tinha sonhado, o mar visto pelos olhos da sua fantasia). Desde pequeno que queria tornar-se um aventureiro, um capitão da Marinha como o tio, que lhe contava relatos maravilhosos das ilhas do Pacífico e das suas viagens pelos mares do Oriente. Além disso, o moço Caprioli lia muitos romances de aventuras, escritos por homens que também tinham sangue de aventureiros e sabiam evocar magis- tralmente a magia dos grandes oceanos, como London, Melville, Stevenson, Salgari e Verne.

Esse fascínio pelo mar, por um elemento vasto e estranho que ainda não conhecia, moldou o espírito de Caprioli e influenciou o seu destino, tornando-o 1919-i-primi-disegni-com-legenda1um sonhador que pro- curava criar um mundo à sua medida, onde, entre a realidade e a fantasia, pudesse viver as suas próprias aven- turas. Em resumo: foi o mar que veio ao encontro de Franco Caprioli, com todo o sortilégio e toda a atracção romântica que a simples evocação dos seus nomes, do seu poder, dos seus mistérios e dos seus perigos, despertara num ladino garoto da província que gostava de desenhar e pintar, nascido em Mompeo, pitoresca região do centro de Itália, a curta distância de Roma.

E Caprioli aproveitou o talento artístico que sentia fervilhar dentro dele para aceitar esse destino, para responder ao desafio do mar, começando a descrevê-lo nos seus rabiscos (logo aos 7 anos)ricordo-di-tripoli-19284 como se o conhecesse melhor do que ninguém, como se tivesse viajado como grumete na escuna do seu tio, enfrentando ventos e tempestades, cruzando paralelos longínquos, ca- çando animais marinhos, desem- barcando em ilhas desertas com nomes exóticos — como Tahorai-Tiki- -Tabu, Matarewa e “Quinta-Feira” — onde só o embate das vagas nos recifes e o piar das gaivotas quebra- vam o silêncio, convivendo com nati- vos que a civilização ainda não con- tagiara e deixando-se embalar pela magia da natureza, ao som dos batu- ques e dos cânticos guturais que ecoa- vam sob a ramagem dos coqueiros.

Um mundo natural e irreal ao mesmo tempo, que nascia no seu espírito e ao qual a sua mão dava forma com gestos habilidosos, espontâneos, traçando numa prancha de desenho, sobre uma folha de papel, as coordenadas de muitas viagens que fazia na pele dos seus personagens e em companhia dos seus leitores, promovido também a capitão, audaz e experiente como um velho marinheiro que conhecia as rotas de todos os oceanos.libia-tripoli-19281 Talvez por isso não há mares como os seus, não há paisagens exóticas, ilhas paradisíacas, que nos fascinem tanto como as que avistamos guiados pela sua bússola e pelo timoneiro que manobra o leme com mão firme; não há tufões nem naufrágios que nos impres- sionem tanto como aqueles a que assistimos na sua ponte de comando, condoídos com a sorte dos mareantes que se debatem entre as vagas, vítimas da fatalidade, mas capazes, no entanto, de vencer as maiores tempestades — como Ângelo (ou Rudi), o pequeno órfão de “O Elefante Sagrado”, único sobrevivente do navio baleeiro que se tornara o seu lar.

Os sonhos de Caprioli acabaram por moldar os sonhos dos jovens que liam as suas histórias e que comun- garam com ele o destino dos seus heróis… como se navegassem também nos longínquos mares austrais, seguindo o curso das estrelas, perscrutando novos horizontes onde refulgiam fabulosas ilhas de coral, sentindo o apelo da aventura como as velas enfunadas pelos ventos alísios!…

(Este texto é oriundo do blogue “O Gato Alfarrabista”, onde foi postado em 28 de Janeiro de 2013).

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