Caprioli e a religião – 2

A propósito da recente visita do Papa Francisco a Portugal, para oficiar as cerimónias de canonização dos três Pastorinhos — tornando, com as suas homilias que inspiram milhões de fiéis, a mensagem de Fátima ainda mais universal —, é oportuno recordar a figura de outro Papa, Pio X, a quem Caprioli dedicou uma das suas histórias de temática religiosa, desta vez explicitamente centrada numa abordagem biográfica, com a expressividade, o rigor, o verismo de época, a harmonia estética, que sempre foram apanágio do seu estilo.

Essa curta biografia de Pio X (1835-1914), um dos maiores pontífices da Igreja Católica, de origem italiana, canonizado em 1954, foi publicada nesse mesmo ano no semanário juvenil Il Giornalino, com o título “Il Papa Santo”.

Aqui fica uma das suas páginas, reproduzida do opúsculo Franco Caprioli – Fantasia a Puntini (edição da Anafi), para conhecimento dos admiradores portugueses do grande mestre italiano.

Caprioli e a religião – 1

Artista singular, de excepcional génio criativo, totalmente dedicado à sua vocação de pintor e ilustrador, para quem os fumetti eram um meio eficaz de familiarizar os jovens com a arte e a cultura, como se estas fossem um prolongamento da aventura e da fantasia, Caprioli demonstrou também ser um homem de fé e de profunda religiosidade, que se norteava por valores cristãos, patentes, aliás, em muitas das suas melhores obras — como nestas belas páginas do drama histórico “O Fugitivo da Torre Vermelha” (Rose Fra le Torri), publicadas no Cavaleiro Andante nºs 69, 70 e 71, de 25 de Abril a 5 de Maio de 1953.

Com admirável autenticidade, Caprioli retratou a Itália medieval no século XIII, que saía penosamente do obscuro período do feudalismo, graças à acção de homens como Frei Francisco, chamado “o Santo de Assis”, e dos seus fiéis discípulos, que se despojavam dos bens temporais, renegando o egoísmo, a vaidade, a sede de riquezas e de poder, para ajudarem os pobres e os desamparados, levando-lhes a fé, a esperança e a caridade, com o exemplo da sua vida dedicada ao trabalho, à pobreza e ao apostolado.

No fundo, valores que Caprioli também professava espiritualmente, vivendo com modéstia, dedicando-se com devoção ao seu trabalho e procurando incutir nos jovens, através do conceito moral das suas histórias, virtudes franciscanas como a generosidade, a humildade e o amor ao próximo.

Caprioli e a censura em Portugal – 1

Publicada em Itália em 1947/48, na revista Topolino, e em Portugal no Álbum do Cavaleiro Andante nº 43 (Dezembro de 1957), a história “O Tigre de Samatra”, uma grande aventura recheada de cenários exóticos e de belas mulheres, cujas peripécias bélicas destoam do pacifismo latente em muitas histórias de Caprioli, sofreu também os efeitos da censura que reinava, nos anos 1950, sobre todas as publicações destinadas à juventude portuguesa.

Uma terna cena amorosa entre dois personagens (nos quais Caprioli se retratou a si próprio e à sua jovem mulher Francesca), que não levantou problemas, como o resto da história, na redacção do Topolino — e note-se que a Itália acabava de sair de uma guerra e de um regime fascista que deixara marcas profundas em toda a sociedade —, foi substituída no Álbum do Cavaleiro Andante por um “cartucho” com texto (de um romantismo pueril, em contraste com a naturalidade e o humor dos diálogos de Caprioli), produzindo um hiato nos desenhos que até os leitores mais ingénuos devem ter achado estranho.

Em contrapartida, cenas de grande violência, como aquela em que o “Tigre de Samatra” chicoteia brutalmente um prisioneiro, golpeando-o no rosto, passaram impunemente pelo crivo da censura. A violência era tolerada, o amor não!

Há ainda mais exemplos de imagens censuradas na 2ª parte desta história, com o título original La Tigre di Sumatra, onde continua a violenta luta entre duas poderosas seitas asiáticas: os “Valetes de Espadas” (I Fanti di Picche), chefiados por um bizarro encapuçado, de seu nome Ta-La-Ta, e os “Dragões Verdes”, em cujas hostes actuam o cruel “Tigre” e a traiçoeira espia Samada.

Para muitos admiradores de Caprioli, “O Tigre de Samatra” é uma espécie de fait-divers na sua obra, pois alia uma elevada percentagem de erotismo, expressa na forma sensual como o grande artista italiano retratou as figuras femininas, como se estivesse a trabalhar para um público mais adulto — o que despertou obviamente o zelo da nossa censura —, a uma trepidante acção que parece inspirada nos serials, os populares filmes de aventuras em episódios exibidos em sessões contínuas, por vezes durante vários dias, obrigando os espectadores mais assíduos a uma autêntica maratona.

Aguardem o próximo post sobre este tema, ainda a propósito desta aventura, do seu enredo bélico (bem documentado na página supra) e dos efeitos da censura nalgumas (belas) imagens de Caprioli, retocadas por mãos inábeis para esconder pormenores pouco chocantes, como decotes e saias curtas!

O Natal na arte de Caprioli

NATALVITTEsta magnífica página de Franco Caprioli, em que a harmonia artística se conjuga, de forma singular, com a candura evangélica das cenas celestiais — ilustrando um poema de Vittorio Emanuele Bravetta, intitulado La Stela e la Zampogna (A Estrela e a Gaita de Foles) —, foi realizada para o nº 52 (ano XII), 25 de Dezembro de 1948, do semanário de inspiração católica Il Vittorioso, onde o saudoso mestre italiano publicou algumas das suas mais celebradas obras-primas.

Segundo nos informou Fulvia Caprioli, filha dilecta do mestre admirável — que tem sido, nos últimos 20 anos, a maior divulgadora da sua obra —, Caprioli, ao desenhar a figura do anjinho que está em primeiro plano, junto do tocador de gaita de foles, serviu-se como modelo do seu filho Fabrizio, então ainda de tenra idade.

Com os nossos agradecimentos a Fulvia, aqui fica também um curioso apontamento sobre esta bela ilustração natalícia de um autor que nutria especial carinho pela festa da Sagrada Família e pela tradição franciscana do Presépio.

“I gatti” (os gatos) na arte de Caprioli – 6

Recentemente, encontrámos na página do Grupo Franco Caprioli (https://www.facebook.com/groups/383007735090773/files/), elaborada por sua filha Fulvia e de consulta imprescindível para todos os admiradores da arte do grande mestre italiano, mais uma ilustração com gatos, dedicada, desta feita, ao famoso conto “A Flauta Mágica”.

Embora revele uma faceta da crueldade patente na maioria dos contos tradicionais infantis — neste, nem os cães e os gatos vadios escapam —, a cena é magistralmente desenhada por Caprioli, com um traço algo satírico, que, aliás, utilizou a preceito, confirmando a sua destra versatilidade, noutras ilustrações de fábulas infantis, realizadas em várias épocas. Esta remonta ao ano de 1969.

Descansem as almas sensíveis e os amigos dos animais porque, mais adiante no conto, aquela gente perversa será severamente castigada!

caprioli-il-flauto-magico-1969

Caprioli e a natureza – 2

os-bandidos-do-yukon-1-883

As páginas em destaque neste post pertencem à história Yukon Selvaggio, onde Caprioli abordou pela primeira vez os temas da Polícia Montada e do Grande Norte, tão caros a escritores como Jack London, Zane Grey, James Oliver Curwood e Rex Beach, que figuravam certamente na lista dos seus favoritos.

Por curiosidade, este excelente episódio — que em Portugal foi publicado no Álbum do Cavaleiro Andante nº 75 (Agosto de 1960), com o título “Bandidos do Yukon”, os-bandidos-do-yukon-capamenos assertivo no que à beleza selvagem do seu cenário diz respeito — corresponde a uma fase em que o grande mestre italiano teve de mudar de estilo, embora a contragosto, influenciado por alguns comentários desfavoráveis acerca da sua “obsessão” pela técnica dos pontinhos (isto é, do pontilhado), que entre o próprio quadro redactorial do Il Vittorioso parecia já não ser muito apreciada.

Caprioli optou, assim — nas suas novas criações para a revista onde colaborava desde o início da sua carreira, em 1937, como autor de fumetti —, por um estilo em que estava menos à vontade (e que os seus admiradores decerto estranharam), substituindo os pontinhos pelo tracejado e procurando dar mais dinamismo à composição das cenas, aligeirando-as dos textos descritivos em que ele e outros desenhadores daquela época eram pródigos, pois também gostavam de expandir a sua criatividade literária.

Nas páginas que aqui apresentamos, apesar dessa faceta descritiva continuar presente, nota-se o equilíbrio entre a perfeição estética das imagens — comprovando o esforço de Caprioli para se adaptar ao seu novo estilo — e a fluência do ritmo narrativo, que as legendas pontuam como uma espécie de voz off num filme documentário sobre a natureza.

Layout 1

Infelizmente, esta página do Il Vittorioso — magnífico tributo ao deslumbrante cenário do Wild North, que London e Curwood descreveram com o mesmo requinte de Caprioli — não chegou ao conhecimento dos leitores portugueses, pois foi suprimida, por falta de espaço, no Álbum do Cavaleiro Andante nº 75. Uma lamentável lacuna que ilustra, entre outros exemplos, os maus procedimentos das revistas juvenis de outros tempos, cujo respeito pela integridade das histórias aos quadradinhos que publicavam era quase nulo.

Caprioli e a natureza – 1

Além de extraordinário ilustrador, Caprioli foi também um profundo adepto das crenças mais humanistas, que não escondia o seu amor pela natureza, pelos animais e por todos os seres, sem excepção, que povoam este planeta, incluindo a espécie que mais o tem arruinado. Poucos são as personagens das suas histórias que não revelam também esses sentimentos, sobretudo as que desempenham papéis de maior relevo, mesmo quando conturbadas por conflitos individuais em que se debatem questões como a virtude e a fé.

O exemplo mais paradigmático é Fulvio Lucerii, protagonista da heróica epopeia Aquila Maris (A Águia dos Mares) — que fascinou os leitores do Cavaleiro Andante —, mas lembramo-nos também de outras histórias cujo fundo humanista torna as relações das suas personagens com a época e o meio em que vivem ainda mais credíveis. O meio, o ambiente, os sentimentos (e o in illo tempore) são ingredientes fundamentais da veia criativa que inspirava o mestre italiano, distinguindo-o dos outros desenhadores do seu tempo.

Em páginas admiráveis, que deixavam todos os juvenis leitores extasiados, Caprioli retratou a natureza nos mais diversos habitats, tanto as selvas luxuriantes da Índia e do Ceilão, e de outros países orientais, como as paradisíacas, mas selvagens e perigosas ilhas dos mares do sul, ou os desertos africanos e as pradarias do Oeste americano. A estes cenários icónicos, cuja beleza excitava a imaginação, juntou também as planícies magiares, as estepes russas, as pampas sul-americanas e até as estranhas paisagens pré-históricas onde começava a despontar a aurora da civilização.

A imagem que hoje apresentamos dispensa mais palavras, ilustrando de forma magnífica alguns dos instantâneos da natureza e dos seus mais exóticos habitantes que Caprioli, como um repórter fotográfico cuja lente era a sua arte e a sua sensibilidade, tão bem sabia captar. 

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