Histórias inglesas de Caprioli – 5

Olac, o Gladiador: “Os Rivais Bretões”

A propósito deste tema, já aqui apresentámos algumas histórias reali- zadas por Caprioli quando colaborou assiduamente com o estúdio de Alberto Giolitti, outro desenhador italiano de grande craveira que, à míngua de oportunidades na sua terra, decidiu tentar a sorte noutras paragens, onde o mercado de BD era mais florescente (e mais rentável), conseguindo que vários editores ingleses começassem a dar apreço aos artistas transalpinos.

Caprioli, a braços também com problemas económicos, devido ao sucessivo cancelamento de várias revistas que publicavam os seus trabalhos, aproveitou a ocasião sem hesitar, embora sabendo que nas revistas inglesas de BD, salvo raras excepções, imperava o anonimato dos seus colaboradores, tanto literários como artísticos. Sobretudo a Fleetway-IPC fazia “vista grossa” aos direitos de autor, a coberto dessa regra, ficando com os originais e vendendo material ao estrangeiro sem pagar mais verbas aos respectivos autores. Mas a necessidade obrigava os desenhadores italianos (e de outros países) a aceitar essas condições, tanto mais que a libra era uma moeda forte e as encomendas não faltavam.

Ao serviço do Estúdio Giolitti, Caprioli ilustrou vários guiões para revistas inglesas, come- çando por um episódio da série “Olac, o Gladiador”, que foi publicado, com cores garridas, no almanaque Tiger Annual de 1962. Uma nota humorís- tica de Caprioli que merece destaque: na última vinheta desta história é bem visível o primeiro nome do artista, em inglês. Resta saber se a sua assinatura passou despercebida ao editor do Tiger Annual ou se este achou graça à ideia!

A verdade é que numa célebre revista da concorrência (a Eagle), onde eram devida- mente publicitados os nomes dos seus autores, campeavam dois outros Frank’s, de glorioso apelido: Hampson e Bellamy. Caprioli, ao entrar no reino da BD inglesa, estava, pois, em boa companhia, embora nenhum leitor da velha Albion conhecesse ainda o seu nome e a sua origem… o que só viria a acontecer muitos anos depois, quando esses leitores já tinham atingido a meia-idade!

Lamentavelmente, Caprioli não foi convidado a desenhar mais nenhum episódio de “Olac, o Gladiador” — série que passou também pelas mãos de Don Lawrence, Ruggero Giovannini, Carlos Roume e outros grandes desenhadores dessa época (e da qual há vários episódios publicados no Mundo de Aventuras e noutras revistas portuguesas).

Esta breve aventura do heróico gladiador bretão surgiu também, a preto e branco, nas páginas do Pim-Pam-Pum (saudoso suplemento infantil do jornal O Século, publicado à 5ª feira), em meados dos anos 60. Muito tempo depois, teve nova impressão, com as cores originais, num magnífico fanzine editado, em 2012, pela Câmara Municipal de Moura, no âmbito do seu Salão de BD e de uma exposição comemorativa do centenário do “desenhador poeta”, que esteve também patente em Viseu, nesse mesmo ano, por iniciativa do Gicav – Grupo de Intervenção Cultural e Artística de Viseu.

São essas páginas que a seguir reproduzimos. Boa leitura, com a deslumbrante arte de Caprioli! (Para ver/ler as imagens em toda a sua extensão, clique duas vezes sobre as mesmas).

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Histórias inglesas de Caprioli – 3

Os Argonautas (1ª parte)

Já aqui referimos os títulos de várias narrativas, sobre os mais diversos temas, acontecimentos e figuras históricas, realizadas por Caprioli para revistas inglesas, no período em que a imprensa juvenil italiana, assolada por grave crise, o deixou praticamente sem trabalho. Forçado a procurar outras fontes de rendimento, sem pôr de lado a banda desenhada, Caprioli juntou-se ao estúdio de Alberto Giolitti, que começara a fornecer aos editores ingleses histórias realizadas, sob encomenda, pelos melhores artistas italianos desse tempo.

Desenhador versátil, mas especia- lizado no género histórico, Caprioli foi naturalmente um dos colabora- dores preferidos de revistas como Ranger e Look and Learn, onde os temas didácticos e culturais se combinavam, em perfeita aliança, com uma lúdica série de relatos aventurosos, no mais puro estilo realista (entre os quais avulta a fantástica série de culto The Trigan Empire, magistralmente desenhada por Don Lawrence).

Foi no Look and Learn que surgiu, em 1970, uma magnífica versão de outra célebre lenda mitológica, The Argonauts (Os Argonautas), que entre nós teve honras de publicação no Jornal do Cuto nº 112, de 24/9/1975. Apresentamos seguidamente a primeira parte dessa história, com cinco páginas, extraídas da citada revista, onde os primorosos desenhos de Caprioli tiveram reprodução condigna, embora num formato bastante menor do que aquele com que apareceram no Look and Learn.

Talvez devido ao rígido anonimato que os editores ingleses impunham aos seus colaboradores, mesmo aos estrangeiros, o trabalho de Caprioli só muito tardiamente foi reconhecido e valorizado, como era justo, num meio onde os comics, isto é, as histórias de BD, embora estivessem em franca expansão, ainda eram consideradas uma modalidade artística subalterna, para consumo juvenil, ao contrário do que, nos anos 60, já acontecia noutros países europeus.

(Nota: para ver/ler estas magníficas páginas de Caprioli em toda a sua extensão, clicar duas vezes sobre as imagens).

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Histórias inglesas de Caprioli – 2

A Lenda de Beowulf (2ª parte)

retrato-caprioliApresentamos seguidamente a 2ª e última parte de “A Lenda de Beowulf” (The legend of Beowulf), uma das mais belas histórias ilustradas por Caprioli no período em que foi colaborador da agência de Alberto Giolitti (anos 60), e também a última que realizou para revistas inglesas.

Nessa época, à míngua de trabalho na sua própria terra, depois da crise que atingiu o Il Vittorioso — a revista onde tinha publicado algumas das suas melhores obras, durante as férteis décadas de 1940 e 1950 —, Caprioli viu-se forçado, para sobreviver economicamente, a seguir o exemplo de muitos outros desenhadores italianos, recorrendo aos editores estrangeiros, sobretudo aos do Reino Unido, que pagavam bem e lhe abriram as páginas de revistas de grande circulação, como Ranger, Look and Learn, Lion, TigerTina e outras.

No mercado inglês de publicações juvenis, cada vez mais pujante na década de 1960, o único senão era a forma rígida de trabalhar de alguns editores, que deixavam aos autores pouca margem de manobra, controlando todo o processo de produção, desde os primeiros esboços até à fase final, e sobrecarregando as vinhetas com textos (quase sempre) excessivos. Além disso, impunham à maioria dos seus colaboradores o mais completo anonimato, como forma de melhor assegurarem a exclusividade do seu trabalho, que podiam reeditar todas as vezes que lhes apetecesse, sem que os autores tirassem disso o menor rendimento.

caprioli-anafi-1Por portas e travessas, estes, embora recebessem em libras esterlinas e fossem mais bem pagos do que noutros países, acabavam por ficar prejudicados. Quanto aos originais, nem pensar em reavê-los… E raramente os desenhadores residentes no estrangeiro, muitos a operar através de agências que lhes cobravam uma percentagem, tinham conhe- cimento das revistas onde as suas obras eram publicadas. No caso de Caprioli, nunca o mestre italiano deve ter posto a vista nesses trabalhos, depois de impressos, realizados em condições que certamente o confrangiam, embora lhe garantissem o bem-estar econó- mico, e que só foram conhecidos em Itália muitos anos depois, já expirado o século em que viveu e produziu tantas obras- -primas, graças ao intenso labor de sua filha Fulvia e de editores como a ANAFI (Associazione Nazionale Amici del Fumetto e dell’Illustrazione).

Recordamos, a finalizar este texto, que “A Lenda de Beowulf” foi publicada em Portugal no Mundo de Aventuras nº 103, 2ª série (18/9/1975), de onde reproduzimos as páginas que se seguem.

(Nota: para ver/ler estas magníficas páginas de Caprioli em toda a sua extensão, clicar duas vezes sobre as imagens).

Caprioli no “Mundo de Aventuras”

mompeo-ri-anni-settanta2Como já aqui foi referido (ver o post anterior), Caprioli surgiu várias vezes no Mundo de Aventuras (MA), ainda na fase de pequeno formato deste popular semanário juvenil, com histórias curtas realizadas para o mercado inglês, durante a década de 1960, através da agência do seu colega e compatriota Alberto Giolitti. Como essas histórias não tinham assinatura (norma draconiana imposta pelas redacções das revistas inglesas à maioria dos seus colaboradores), só os leitores mais avisados saberiam distinguir nas imagens impressas o estilo do mestre italiano. Mas, no caso de Caprioli, a assinatura era um pormenor de somenos importância, porque o que identificava à primeira vista os seus trabalhos era a harmonia da forma e a beleza do traço, sempre límpido e rigoroso, aliando a perfeição estética à liturgia poética e documental.

Nesse formato da 1ª série, ultrapassado já o nº 1000, o Mundo de Aventuras publicou algumas histórias baseadas em factos verídicos, oriundas de uma rubrica criada na revista inglesa Lion, sob a epígrafe Bravest of the Brave (Os Mais Valentes dos Valentes), onde eram evocados feitos como os do capitão Robert Scott, que morreu heroicamente na tentativa de ser o primeiro explorador a alcançar o Polo Sul, e de um jovem oficial de Marinha que se distinguiu na Segunda Guerra Mundial, de seu nome John Fitzgerald Kennedy, futuro Presidente dos Estados Unidos da América.

Geralmente essas histórias não tinham mais de duas ou três páginas, permitindo que fossem apresentadas no Mundo de Aventuras como complemento do sumário principal e sem serem sujeitas aos inevitáveis cortes e retoques por causa do reduzido formato da revista. Algumas foram traduzidas por Raul Correia, assíduo colaborador do Mundo de Aventuras e de outras publicações da Agência Portuguesa de Revistas. Aqui fica uma resenha desses episódios, com os títulos em português e inglês e os correspondentes números do MA:

Luta em “O Álamo” (Remember the Alamo!), nº 1010 – O Náufrago do “Rohilla” (The Wreck of the “Rohilla”), nº 1014 –  O Cerco de Pequim (The Siege of Peking), nº 1019 – A História do “Flying Enterprise” (The Story of the “Flying Enterprise”), nº 1029 – A Última Batalha do “Vingador” (The Last Battle of the “Revenge”), nº 1078 – Um Coco Salvou Onze Homens (A Coconut Saved Eleven Men), nº 1079.

Mas não foi só o Mundo de Aventuras a dar à estampa estas curtas histórias com desenhos de Caprioli, pois encontram-se também vários episódios, lamentavel- mente remontados (para não dizer “escortanhados”) em páginas de revistas de formato ainda mais pequeno, como Condor Popular, Ciclone e O Preço do Triunfo. Alguns desses episódios — a começar por “O Rapaz Que Conquistou um Império” — serão tema de futuros artigos no nosso blogue.

Na sua 2ª série, o MA publicou apenas “A Lenda de Beowulf”, uma das mais belas histórias do período em que Caprioli foi colaborador do Estúdio Giolitti, e também a última que realizou para revistas inglesas. Coincidindo com a desvalorização da libra esterlina — que tornou o mercado inglês de BD menos vantajoso para os desenhadores estrangeiros —, renasceu em Itália o apreço pela obra de Caprioli, graças aos seus novos trabalhos publicados no semanário Il Giornalino.

Ficaram os ingleses a perder, ganharam, em troca, os leitores italianos muitas obras que coroaram, com o seu esplendor artístico, a derradeira etapa da carreira de um dos maiores ilustradores europeus, cujo meio ideal de expressão e de contacto com o público juvenil, a quem ensinou divertindo, foram os fumetti (isto é, as histórias aos quadradinhos).

Ao dar à estampa, no nº 103 da 2ª série (publicado em 18 de Setembro de 1975), a magnífica versão de “A Lenda de Beowulf” que o inspirado e poético traço de Caprioli foi beber a velhas fontes da mitologia inglesa, o Mundo de Aventuras quis prolongar a homenagem ao saudoso mestre italiano, falecido em Fevereiro do ano anterior, apresentando na sua nova rubrica Mundo em Quadrinhos, coordenada por José de Matos-Cruz, um artigo da autoria de Gino Tomaselli, jornalista que conviveu com Caprioli na redacção do Il Giornalino.

Reproduzimos seguidamente esse artigo, recordando um tempo em que o MA estava no centro das nossas actividades profissionais, num labor diário norteado pelo desígnio de renovar a mais antiga revista juvenil portuguesa, recorrendo a séries e autores de prestígio capazes de competir com a BD americana que continuava a povoar as suas páginas.

 

Caprioli e os clássicos da literatura – 3

FIGApós o período áureo da sua carreira, com a crise editorial dos anos sessenta e o encerramento definitivo do Il Vittorioso e do Vitt (revistas onde publicou algumas das suas maiores criações), Franco Caprioli viu-se constrangido, como muitos outros desenhadores italianos, a aproveitar o ainda florescente mercado inglês — através de agências como o Studio Giolitti, dirigido por outro grande nome da BD transalpina, Alberto Giolitti —, onde os seus trabalhos surgiram esporadicamente nas revistas Ranger, Look and Learn, Lion, Tiger AnnualTina e outras.

Dessas produções, sempre magnífi­cas, mas sem assinatura (como era norma nos comics ingleses), destacamos algumas publicadas na década seguinte em Portugal, como Moby Dick, os contos mitológicos The Argonauts («Os Argonautas») e The Legend of Beowulf («A Lenda de Beowulf»). FIG.29 - MOBY DICKMerecem também referência dois episódios, ainda inéditos entre nós, realizados para a revista Ranger [onde se estreou a série de culto The Trigan Empire, desenhada por Don Lawrence]: The Globe Mutiny, outra história de tema marítimo inspirada num acontecimento verídico, que lembra a «Revolta na Bounty»; e The Toledo Mask, aventura passada em França, durante a época do Terror, com um émulo do Pimpinela Escarlate.

Como anunciámos há pouco tempo, aqui têm as primeiras seis páginas de um dos melhores trabalhos de Caprioli para os comics ingleses: a curta mas primorosa adaptação de Moby Dick, o monumental romance de Herman Melville, dada à estampa em 1966 no semanário Ranger (nºs 22 a 27) e reeditada, em 1973, no nº 100 do Jornal do Cuto, revista eficientemente dirigida por Roussado Pinto.

Lembramos, mais uma vez, que Caprioli voltaria ao tema da caça à baleia branca e do capitão Ahab (sem dúvida, um dos seus favoritos) algum tempo depois, ao realizar uma nova versão de Moby Dick, menos abreviada, que só saiu do prelo no ano seguinte ao da sua morte (1974).

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