Caprioli ilustrador – 2

Nos anos 30, ainda antes de iniciar uma frutuosa carreira como autor de fumetti (isto é, histórias aos quadradinhos), Franco Caprioli, fascinado pelos ícones da literatura russa — como Tolstoi, Gogol e Dostoiewsky —, realizou várias ilustrações inspiradas nalgumas das suas obras, com um estilo modernista, muito influenciado pelos cultores da chamada “Arte Nova”.

Curiosamente, foi esse estilo que adoptou nas suas primeiras histórias publicadas em revistas para jovens, nomeadamente no Argentovivo! e no Il Vittorioso, como, por exemplo, Gino e Piero, La Sponda delle Chimere e Il Mistero del Budda di Giada. As suas primeiras experiências com o “pontilhado”, para dar mais sombras e volumes às figuras que desenhava (quase só com linhas de contorno), vieram mais tarde, numa fase de amadurecimento estético que já prenunciava, em criações como L’Isola Giovedi e Nel Deserto di Cartagine, as suas futuras obras-primas, produzidas, sobretudo, nos anos 50.

Quanto aos grandes escritores russos, Caprioli captou-lhes, nas suas ilustrações, o realismo, a paixão e a alma — com tanto rigor que até usava como veste, nessa época, a tradicional rubaska de Tolstoi, para exprimir a sua comunhão de ideais com o autor de Guerra e Paz. Que pena não ter ido mais longe, antecipando, com esses tesouros da literatura, a sua auspiciosa estreia nos fumetti.

Na primeira metade da década de 30, Caprioli (que se fixara, então, em Roma) dedicou-se à carreira de desenhador e pintor, interessando-se também por obras de outros escritores, seus contemporâneos, que ilustrou com a mesma sofisticação de estilo — como demonstram as páginas seguintes, extraídas do catálogo Caprioli Inedito, editado em 1984 pelo Fumetto Club de Turim, no âmbito de uma exposição evocativa do 10º aniversário do seu falecimento.

caprioli-ilustracoes-3-049

Anúncios

Caprioli e a Pré-História – 1

Caprioli (auto-retrato)Notável pintor, ilustrador e homem de cultura, Caprioli escolheu os fumetti por vocação (como escreveu no seu diário) e como forma de materializar os seus sonhos e os de muitos jovens, cujos anseios de aventura, liberdade e fantasia partilhava. Mas, não obstante a sua intensa actividade e o alto nível artístico da sua obra, esta só foi reconhecida oficialmente em 1973, um ano antes da sua morte, quando em Génova, nas 3.as Giornate del Fumetto e dell’ Illustrazione, um júri de profissionais lhe concedeu o prémio Il Cartoonist, como melhor desenhador italiano.

Foi assim que o nome e a obra de Caprioli voltaram à ribalta, merecendo a atenção dos especialistas, do público e de editores como Camilo Conti, que republicou várias das suas histórias em álbuns de grande formato, reproduzindo fielmente as cores originais do Il Vittorioso.

Homenagem tardia mas justa, que veio coroar uma fecunda carreira devotada à pintura, ao desenho, à BD e ao estudo da Paleontologia e da Antropologia, duas das suas maiores paixões, bem patentes no tema de fundo e no conceito artístico e filosófico de “Una strana avventura” (Il Vittorioso, 1954, 1962), viagem onírica a um passado remoto, vivida por três rapazes e pelo seu professor de História, em que Caprioli, no auge da sua forma criativa, assumiu simbolicamente o papel do mestre cujas lições “ao vivo” empolgavam os alunos. Muitos leitores do Cavaleiro Andante, interessados pelo estudo da Pré-História, nunca devem ter esquecido esta “estranha aventura”.

Estranha aventura - pag 11 e 12

Aliás, o mundo pré-histórico já estava bem representado numa das suas primeiras criações, ”La tribù degli uomini dei fiume” (Argentovivo, 1937), em que dois jovens descendentes do homem de Neandertal faziam também uma expedição aventurosa, enfrentando os mistérios e os perigos da natureza primitiva.

É essa história, apenas com cinco páginas (e ainda com textos didascálicos, como era prática corrente no Argentovivo), que seguidamente reproduzimos da revista italiana Exploit Comics nº 40 (Maio de 1987), onde foi pela primeira vez reeditada. Em breve voltaremos a abordar este tema, que fascinava Caprioli e lhe inspirou algumas das melhores ilustrações de toda a sua obra.

A tribo do rio 1 e 2

A tribo do rio 3 e 4

A tribo do rio 5 e 6

A tribo do rio 7 e 8 224

A tribo do rio 9 e 10

Sendo esta uma das primeiras histórias desenhadas por Caprioli (no ano em que iniciou a sua carreira como autor de fumetti), é natural que o seu estilo gráfico revele ainda algumas “fraquezas”; mas basta compará-la com as que publicou posteriormente noutras revistas, onde tinha mais espaço e mais liberdade estética, para apreciar e valorizar os constantes progressos do seu estilo, cuja original técnica do pontilhado começava a florescer, como produto de uma profunda evolução artística que se desenvolveu num período bastante curto.

Histórias de Caprioli publicadas em Itália

Caricatura azulDepois de termos apresentado neste blogue uma lista completa com as histórias de Franco Caprioli publicadas em Portugal e no Brasil, por diversas revistas e editoras, oferecemo-vos hoje uma extensa quadriculografia dos seus trabalhos publicados cronologicamente em revistas italianas, com títulos emblemáticos como Topolino, Audace, Argen- tovivo, Il Vittorioso, Corriere dei Piccoli, Giramondo, Il Giornalino, onde Caprioli se destacou, com relevo para o Il Vittorioso, ilustrando, desde 1937, dezenas de fumetti com temas exóticos e aventurosos, que deslumbraram todos os leitores com a força poética da sua imaginação e o traço límpido e harmonioso do seu estilo incomparável, caracterizado pelo perfeccionismo da técnica do “pontilhado”, cuja Comix 5 - P30 977evolução atingiu o auge nos anos 50, coincidindo com a época de maturidade física e artística do genial mestre italiano.

A lista seguinte foi reproduzida da revista italiana Comics nº 5, editada já há várias décadas (Novembro de 1972), quando o surto das publicações dedicadas ao fenómeno da Banda Desenhada e ao estudo da sua história, teoria e técnica como arte sequencial ou figuração narrativa (apreciada inclusive por grande número de intelectuais, da craveira de Umberto Eco, Alain Resnais e Federico Fellini, entre outros), chegou também a Itália.

Caprioli, falecido em 8 de Fevereiro de 1974, com 62 anos incompletos, publicou ainda no Il Giornalino duas magníficas adaptações de romances de Jules Verne, que são bem conhecidas dos leitores portugueses: “Miguel Strogoff” e “Os Filhos do Capitão Grant”, deixando esta última inacabada.

Comix 5 - P32 979

Comix 5 - P33 980

Comix 5 - P34 981

Obras-primas: O Elefante Sagrado (L’Elefante Sacro) – 6

Fanco Caprioli in et+á giovanileApresentamos hoje mais quatro páginas desta magnífica história de Caprioli, que em 1952, nos primeiros números do Cavaleiro Andante, fez com que um grande número de jovens portugueses descobrissem o talento de um artista de que nunca tinham ouvido falar — embora a sua carreira como autor de histórias aos quadradinhos já tivesse começado há 15 anos, nos novos semanários italianos Il Vittorioso e Argentovivo! —, ficando também rendidos, como os de outros países, à clareza e harmonia do seu traço, à clássica perfeição das suas figuras finamente pontilhadas, ao sortilégio das suas paisagens exóticas e dos seus mares revoltos, assolados por tempestades que nenhum outro desenhador era capaz de retratar com tamanha magnificência.

Através dessas maravilhosas imagens, os leitores podiam viajar espiritualmente num mundo onde não imperava a violência, mas a justiça, a amizade, a coragem, a aventura, a fantasia, o exotismo. Um mundo desconhecido e poético, mas natural, feito à medida dos seus sonhos e dos sonhos de Caprioli.

elefante-sagrado-22

elefante-sagrado-23

elefante-sagrado-24

elefante-sagrado-25

elefante-sacro-22

elefante-sacro-23

elefante-sacro-24

elefante-sacro-25

 

WordPress.com Apps

Apps for any screen

Le chat dans tous ses états - Gatos... gatinhos e gatarrões! de Catherine Labey

Pour les fans de chats e de tous les animaux en général - Para os amantes de gatos e de todos os animais em geral

largodoscorreios

Largo dos Correios, Portalegre

almanaque silva

histórias da ilustração portuguesa