Caprioli e a Pré-História – 4

Esta página com um artigo de António Dias de Deus, baseado na magnífica ilustração de Caprioli que serviu de capa ao nº 1 (2ª série) do fanzine Cadernos de Banda Desenhada (Novembro 1995) — onde foi publicada a história “Uma Estranha Aventura”, um dos mais perfeitos exemplos do primor artístico e da vasta erudição do mestre italiano, até em domínios reservados a especialistas como a Paleontologia, a Antropologia e a Etnologia —, era destinada à 2ª edição desse fanzine, que por motivos de força maior não chegou a concretizar-se.

Trata-se, pois, de um artigo inédito que muito nos apraz divulgar neste blogue, com a devida vénia ao seu autor, um dos mais notáveis críticos e historiadores da BD portuguesa, de quem infelizmente há muito não nos chegam notícias.

Anúncios

Caprioli ilustrador – 1

Caprioli (auto-retrato)No início da sua longa e prolífica carreira, Caprioli alimentou o sonho de se tornar ilustrador e pintor, antes de ter sentido a vocação (e o desejo) de se dedicar aos fumetti, nome que em Itália se dá, desde há muito, às histórias aos quadradinhos (o termo banda desenhada ainda não pegou neste país, onde a cultura e a arte fazem parte do seu rico património histórico, como em nenhum outro lugar do mundo).

Desconhecida da maioria dos seus inúmeros admiradores, a obra de Caprioli nas vertentes que primeiro despertaram uma intensa paixão artística, a que ficou ligado toda a vida, é quase tão vasta como a que produziu para algumas das mais famosas revistas juvenis do seu tempo, mas permanece, em grande parte, num semi-ineditismo, dispersa por livros, revistas, jornais e publicações várias que hoje são cada vez mais difíceis de encontrar. 

Caprioli (Viaggio preistoria)Sua filha Fúlvia tem feito um notável e eficiente trabalho de divulgação desses valiosos trabalhos, dignos do renome que envolve outras obras artísticas do genial mestre italiano, sobretudo as histórias que produziu, no período áureo da sua carreira, para revistas como Topolino e Il Vittorioso, e mais tarde para o Il Giornalino. Uma das publicações em que se pode admirar a pujança do seu talento como ilustrador é um livro (1ª edição, 1965) inti- tulado Viaggio attraverso la preistoria, com texto de Mario Bianchini, que Caprioli foi incumbido de tornar mais acessível e atractivo para os leigos, recheando-o de imagens de apurado efeito didáctico e artístico, aliado a uma minúcia descritiva inspirada nos seus vastos conhe- cimentos de antropologia, paleontologia, arqueologia e de outras ciências.

Uma dessas ilustrações, de rara beleza e requinte estético, serviu de capa a um fanzine que o autor destas linhas editou em finais de 1995, com o título Cadernos de Banda Desenhada (2ª série), e de cujo conteúdo já demos pormenorizada nota neste blogue (ver a rubrica Antologia). Além da harmonia e perfeição do seu estilo clássico, Caprioli tinha um dom especial que cultivava com esponta- neidade, retratando a natureza e os seus elementos por um prisma poético e realista e suavizando quase sempre a violência com um véu de sensual beleza plástica, mesmo quando essas cenas despertavam nos leitores emoções mais fortes e contraditórias.

O mesmo invulgar conceito artístico transparece na ilustração acima reproduzida, em que avulta a figura escultural da rapariga caída por terra no 1º plano, com um aspecto tão sereno como se tivesse adormecido… quando o que está explícito na imagem é a violência da guerra, a crueza dos bárbaros invasores e a tragédia que se abate sobre as suas vítimas. Não há nesta obra nenhum “atentado” estético, pois a sua harmonia de linhas e de composição é perfeita e admirável, apenas uma nítida contradição formal, que a torna ainda mais singular e digna de pertinente análise. Para Caprioli a forma era superior ao conteúdo.

Quando a publicámos no referido fanzine (que só teve um número, dedicado a uma das melhores histórias da “idade de ouro” de Caprioli), Phobos 017socorremo-nos de uma revista francesa que também a escolheu como ilustração de capa, certamente por se harmonizar com a temática que percorria todas as suas páginas: a heroïc fantasy, com relevo para as seminais obras de Robert Erwin Howard, criador de Conan, o Bárbaro, e de Barry Windsor Smith, um dos melhores desenhadores que recriaram esta mítica personagem no universo dos comic books.

Não sabemos se a tal revista francesa (Les hordes de Phobos) teve mais sorte do que o nosso modesto fanzine, mas não deixa de ser curioso que, a par dos ilustradores em foco no seu sumário, de estilo tão vigoroso como a prosa e as épicas histórias de Robert E. Howard, Caprioli figure em lugar privilegiado, assumindo também um papel de destaque num género cuja rudeza, barbaridade e violência destoavam por completo dos seus sentimentos e dos cânones artísticos por que sempre se regeu… mesmo quando, em certas épocas mais remotas, foi dominado por uma insólita e provocadora “febre” satírica!

Obras-primas: O Elefante Sagrado (L’Elefante Sacro) – 7

Concluímos hoje a apresentação desta magnífica história de Caprioli, com argumento de Luigi Motta, que se estreou no semanário italiano Il Vittorioso, em 1949, onde foi publicada do nº 22 ao 50, sempre a quatro cores. Em Portugal, faria as honras do Cavaleiro Andante (nascido dois anos depois, em 5 de Janeiro de 1952), a par de outra aventura de ambiente exótico desenhada pelo mestre italiano, “Os Pescadores de Pérolas” (I Pescatori di Perle), que surgirá também em breve no nosso blogue.

Mas a publicação no Cavaleiro Andante, cujos primeiros números eram geralmente mal impressos, não foi isenta de muitos defeitos.

Como podem ver nas páginas que reproduzimos, houve vinhetas que sofreram cortes, total ou parcialmente: uma no nº 28, por causa do cabeçalho da revista, e outra no nº 25, devido ao cupão com o número de tiragem que habilitava ao sorteio de um rádio e uma máquina fotográfica, em todas as edições do popular semanário. Essas vinhetas foram reconstituídas nos Cadernos de Banda Desenhada nº 6 (Dezembro de 1987), que reeditou “O Elefante Sagrado” a preto e branco. Mas a versão completa, a partir do original italiano e em todo o esplendor das cores do Il Vittorioso, só agora pode ser devidamente apreciada pelos leitores portugueses (alguns dos quais são os mesmos daquele tempo).

elefante-sagrado-26

elefante-sagrado-27

elefante-sagrado-28

elefante-sagrado-29

elefante-sacro-26

elefante-sacro-27

elefante-sacro-28

elefante-sacro-29

Antologia – 1

FRANCO CAPRIOLI, pioneiro da BD de aventuras

francocaprioli_par_tarquinio

caprioli-citac3a7c3a3o2

Nesta rubrica, que complementará a abor- dagem de outros temas sobre a vasta obra de Caprioli, iremos apresentar, de quando em quando, artigos, páginas ou excertos de textos publicados em diversas revistas, nomeadamente portuguesas, onde os seus elementos biográficos e a sua tripla faceta, artística, cultural e poética, foram larga- mente divulgados e comentados.

Começamos por um artigo que escrevi, como nota de abertura, para o nº 1 dos Cadernos de Banda Desenhada (2ª série), projecto editorial que pretendia modestamente assegurar a continuidade de um título publicado entre Janeiro de 1987 e Junho de 1988, num total de oito números (num dos quais foi reeditada uma das melhores histórias de Caprioli, “O Elefante Sagrado”) e que eu dirigi com o pseudónimo de A.A. de Castro, coadjuvado pela Catherine Labey e por dois velhos amigos, um deles, o José Manuel Sobral,  já falecido.

Infelizmente, como muitos outros sonhos, esse projecto idealista, voca- cionado para a reedição de BD clássica, portuguesa e de outros países — uma área onde existiam (e existem ainda) muitas lacunas —, estava condenado ao fracasso, desde logo por falta de uma base económica e editorial consistente, apoiada numa rede de distribuição eficaz, que a empresa a que recorremos não nos soube assegurar.

Quando um dos sócios principais do nosso pequeno grupo (o “Colectivo BD”) se afastou, a revista — que estava prestes a atingir o ponto de equilíbrio entre receitas e despesas, depois de reduzir a tiragem, graças ao aumento gradual das vendas e da carteira de publicidade — deixou de ter meios para continuar. O último dinheiro que recebemos mal deu para pagar à gráfica.

De aspecto mais modesto, impressa em pequeno offset e com uma tiragem bastante reduzida, a 2ª série viveu ainda menos tempo, devido a factores exógenos de que já nem me consigo recordar. O seu único número, saído em Novembro de 1995, foi dedicado também a Caprioli, FIG 19 Estranha aventura 2apresentando a preto e branco a história intitulada “Uma Estranha Aventura” (Una Strana Avventura), que muitos leitores do Il Vittorioso e do Cavaleiro Andante leram com especial curiosidade, por se tratar de uma narrativa fantástica, de fundo didáctico, onde Caprioli conjugou magistralmente o seu talento de ilustrador e um apaixonado interesse pela História e pela Ciência, em particular pelas civilizações primitivas e por temas como a Antropologia e a Paleontologia.

Assuntos em que o grande desenhador italiano era, aliás, um profundo especialista, como demonstrou ao ilustrar o livro Viaggio attraverso la Preistoria, com texto de Mario Bianchini, que ainda hoje serve de referência a estudiosos e leitores fascinados por aquelas remotas eras.

“Uma Estranha Aventura” foi publicada no Cavaleiro Andante nºs 200 a 221 (1954-55), mas preferimos extraí-la, ao fazer essa reedição, da revista brasileira Epopeia nº 34 (2ª série), de Maio de 1964, onde tinha sido muito melhor reproduzida a preto e branco.

(Nota: para ler o artigo, clicar sobre as páginas e depois ampliá-las).

Obras-primas: O Elefante Sagrado (L’Elefante Sacro) – 1

mompeo-ri-anni-settanta2Em 2012 celebrou-se o centenário do nascimento de Francesco (Franco) Caprioli, um dos artistas e autores de BD que ainda hoje mais admiro e que ficou conhecido pelo cognome de “poeta do mar”, devido ao seu fascínio pelas ilhas dos Mares do Sul e pelos ambientes exóticos e marítimos, que retratou com incomparável mestria.

Descobri-o nas páginas do saudoso Cavaleiro Andante (que comecei a ler desde o 1º número), e o meu apreço pelo seu enorme e poético talento de ilustrador foi sempre aumentando, à medida que iam surgindo outras criações suas no Cavaleiro Andante (e respectivos Álbuns e Números Especiais), Zorro, Jornal do Cuto e Mundo de Aventuras, antes da publicação em álbum de algumas das obras mais significativas da última fase da sua carreira, como as adaptações que fez de quatro célebres romances de Jules Verne: “A Ilha Misteriosa”, “Um Capitão de 15 Anos”, “Miguel Strogoff” e “Os Filhos do Capitão Grant”.

Capa revista Caprioli 150Algumas pranchas com reproduções destas e de outras histórias, num longo percurso artístico de quase 40 anos — iniciado em 1937 nas páginas de duas revistas juvenis, ArgentovivoIl Vittorioso — estiveram patentes nas exposições do centenário que lhe foram dedicadas em Portugal, nos meses de Junho e Agosto de 2012, por iniciativa do Salão de Moura e do Gicav de Viseu, com Luís Beira e Carlos Rico, dois nomes incontornáveis do nosso panorama bedéfilo, no papel de activos e zelosos comissários. Também nessa altura foram editados pelas mesmas entidades um fanzine e um e-book (DVD), que tive a honra e o prazer de coordenar, com muitos excertos da obra de Caprioli — e ainda possivelmente disponíveis para quem estiver interessado, basta contactar o Carlos Rico (Câmara Municipal de Moura) e o Gicav – Grupo de Intervenção e Criatividade Artística de Viseu.

O ano e as comemorações do centenário — que tiveram a valiosa colaboração de Fulvia Caprioli, filha do grande Mestre italiano — já passaram, mas queremos prolongá-las, intemporalmente, neste blogue, inaugurando um ciclo dedicado a Caprioli, com a reprodução de algumas das suas primeiras histórias publicadas no nosso país, a começar por uma das mais famosas: “O Elefante Sagrado” (L’Elefante Sacro), apresentada do nº 1 ao nº 29 do Cavaleiro Andante (5 de Janeiro a 19 de Julho de 1952) e reeditada em Dezembro de 1987, a preto e branco, no nº 6 dos Cadernos de Banda Desenhada, efémero projecto editorial a que a Catherine Labey, eu e mais dois amigos metemos ombros, quando éramos mais jovens e mais sonhadores.

ELEFANTE SAGRADO - TRIGOParece-me, para todos os efeitos, uma boa maneira de inaugurar este blogue… Mas não iremos apresentar somente as páginas do Cavaleiro Andante, completadas com a esplêndida e deco- rativa ilustração de Fernando Bento que saiu na capa do seu nº 10. Com a devida (e gentilíssima) autorização de Fulvia Caprioli, a quem muito agra- decemos, mostraremos também, em simultâneo, as páginas originais, em grupos de quatro, para que os nossos potenciais leitores — a partir desta data — possam detidamente apreciá-las, comparando a impressão a duas cores e a preto e branco (não isenta de muitos defeitos) do Cavaleiro Andante com o sedutor aspecto cromático das páginas do Il Vittorioso, revista semanal e de grande formato que fazia inveja às revistas portuguesas (e a muitas outras) do seu tempo. Neste caso, reproduzimo-las do álbum editado em 1989 pelas Edizioni Camillo Conti, na magnífica série dedicada a Caprioli.

Quem quiser ler uma biografia do Mestre italiano e apreciar mais alguns dos seus desenhos, pode consultar o blogue da Catherine, em português e francês,  lechatdanstousesetats.wordpress.com  (“Gatos, gatinhos e gatarrões“), na categoria I gatti di Franco Caprioli, dedicado aos seus (e meus também) amados bichanos de quatro patas.

Resta indicar que L’Elefante Sacro, uma das criações formalmente mais deslumbrantes de Caprioli, teve a sua primeira publicação em 1949, nos nºs 22 a 50 do Il Vittorioso, com argumento de Luigi Motta, autor de numerosos romances de aventuras em que se reflecte a influência do seu mestre e amigo Emilio Salgari, alguns dos quais foram também traduzidos e publicados no nosso país pela popular editora Romano Torres.

capa-de-o-elefante-sagrado2

o-elefante-sagrado-1-7312

elefante-sagrado-2-7471

o-elefante-sagrado-3

o-elefante-sagrado-4-

elefante-sagrado-5

lelefante-sacro-capa3

lelefante-sacro-1

lelefante-sacro-2

lelefante-sacro-3

lelefante-sacro-4

lelefante-sacro-5

WordPress.com Apps

Apps for any screen

Le chat dans tous ses états - Gatos... gatinhos e gatarrões! de Catherine Labey

Pour les fans de chats e de tous les animaux en général - Para os amantes de gatos e de todos os animais em geral

largodoscorreios

Largo dos Correios, Portalegre

almanaque silva

histórias da ilustração portuguesa