Caprioli e a religião – 1

Artista singular, de excepcional génio criativo, totalmente dedicado à sua vocação de pintor e ilustrador, para quem os fumetti eram um meio eficaz de familiarizar os jovens com a arte e a cultura, como se estas fossem um prolongamento da aventura e da fantasia, Caprioli demonstrou também ser um homem de fé e de profunda religiosidade, que se norteava por valores cristãos, patentes, aliás, em muitas das suas melhores obras — como nestas belas páginas do drama histórico “O Fugitivo da Torre Vermelha” (Rose Fra le Torri), publicadas no Cavaleiro Andante nºs 69, 70 e 71, de 25 de Abril a 5 de Maio de 1953.

Com admirável autenticidade, Caprioli retratou a Itália medieval no século XIII, que saía penosamente do obscuro período do feudalismo, graças à acção de homens como Frei Francisco, chamado “o Santo de Assis”, e dos seus fiéis discípulos, que se despojavam dos bens temporais, renegando o egoísmo, a vaidade, a sede de riquezas e de poder, para ajudarem os pobres e os desamparados, levando-lhes a fé, a esperança e a caridade, com o exemplo da sua vida dedicada ao trabalho, à pobreza e ao apostolado.

No fundo, valores que Caprioli também professava espiritualmente, vivendo com modéstia, dedicando-se com devoção ao seu trabalho e procurando incutir nos jovens, através do conceito moral das suas histórias, virtudes franciscanas como a generosidade, a humildade e o amor ao próximo.

Caprioli e a Pré-História – 3

Desenhador de excepcionais dotes artísticos, aliados a uma profunda cultura sobre os mais diversos temas — como a Paleontologia, a Arqueologia, a Etnologia, a História da Antiguidade e as Ciências Náuticas, por exemplo —, Caprioli não se limitou a realizar histórias aos quadradinhos de fundo aventuroso, para deleite dos leitores do Topolino, do Giramondo, do Argentovivo! ou do Il Vittorioso.

O seu objectivo era também transmitir aos jovens, de forma amena, essa vasta soma de conhecimentos através de rubricas didácticas como Popoli e Paesi, Storia della Nave, Figurini di Ogni Epoca, L’Italia nella Preistoria, publicadas no Il Vittorioso, a revista que acolheu algumas das suas maiores criações, entre os anos de 1937 e 1964.

O sucesso dessas rubricas, profusamente ilustradas e com textos redigidos inteiramente por Caprioli, espelha bem o seu interesse lúdico e o saber do Mestre, que não ficava aquém da beleza da sua arte figurativa — como demonstram as duas páginas aqui reproduzidas.

Caprioli ilustrador – 2

Nos anos 30, ainda antes de iniciar uma frutuosa carreira como autor de fumetti (isto é, histórias aos quadradinhos), Franco Caprioli, fascinado pelos ícones da literatura russa — como Tolstoi, Gogol e Dostoiewsky —, realizou várias ilustrações inspiradas nalgumas das suas obras, com um estilo modernista, muito influenciado pelos cultores da chamada “Arte Nova”.

Curiosamente, foi esse estilo que adoptou nas suas primeiras histórias publicadas em revistas para jovens, nomeadamente no Argentovivo! e no Il Vittorioso, como, por exemplo, Gino e Piero, La Sponda delle Chimere e Il Mistero del Budda di Giada. As suas primeiras experiências com o “pontilhado”, para dar mais sombras e volumes às figuras que desenhava (quase só com linhas de contorno), vieram mais tarde, numa fase de amadurecimento estético que já prenunciava, em criações como L’Isola Giovedi e Nel Deserto di Cartagine, as suas futuras obras-primas, produzidas, sobretudo, nos anos 50.

Quanto aos grandes escritores russos, Caprioli captou-lhes, nas suas ilustrações, o realismo, a paixão e a alma — com tanto rigor que até usava como veste, nessa época, a tradicional rubaska de Tolstoi, para exprimir a sua comunhão de ideais com o autor de Guerra e Paz. Que pena não ter ido mais longe, antecipando, com esses tesouros da literatura, a sua auspiciosa estreia nos fumetti.

Na primeira metade da década de 30, Caprioli (que se fixara, então, em Roma) dedicou-se à carreira de desenhador e pintor, interessando-se também por obras de outros escritores, seus contemporâneos, que ilustrou com a mesma sofisticação de estilo — como demonstram as páginas seguintes, extraídas do catálogo Caprioli Inedito, editado em 1984 pelo Fumetto Club de Turim, no âmbito de uma exposição evocativa do 10º aniversário do seu falecimento.

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As 12 histórias mais belas de Caprioli – 3

Capa DVD CaprioliA escolha das “12 histórias mais belas de Caprioli” foi feita com base num inquérito entre cinco pessoas que participaram activamente nos eventos comemorativos, em meados de 2012, do centenário do “desenhador poeta”, numa organização conjunta da Câmara Municipal de Moura e do GICAV (Viseu): Carlos Rico, Luiz Beira, Jorge Magalhães, Carlos Almeida e Fulvia Caprioli (esta como grande especialista e divulgadora da obra de seu pai).

Aqui têm mais algumas páginas desse trabalho com as mais belas histórias do mestre italiano (nenhuma foi deixada de fora), nas versões originais e pela ordem em que foram classificadas, todas fazendo parte de um e-book (dvd) produzido, em Agosto de 2012, pelo GICAV – Grupo de Intervenção e Criatividade Artística de Viseu, com muito material inédito no nosso país. Alguns exemplares desse e-book poderão ainda estar disponíveis, assim como do fanzine editado pela Câmara Municipal de Moura.

Advertência aos leitores: o episódio L’Isola Tabu, publicado em 1945, é a única excepção à regra, nesta primeira parte da tabela, pois ficou em 15º lugar, com 11 pontos, mas foi colocado a par de L’Isola Giovedi (11º classificado), por se tratar de histórias cuja temática é muito semelhante e que Caprioli, aliás, sempre prezou como dois dos seus melhores trabalhos. O 12º lugar coube a outra obra de grande beleza figurativa, publicada em 1954 no Il Vittorioso: Dakota Jim, o Cowboy Verde, um dos raros westerns com a assinatura de Caprioli, que deslumbrou também muitos leitores do Cavaleiro Andante.

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As 12 histórias mais belas de Caprioli – 2

Capa revista Caprioli 150Como já referimos, a escolha das “12 histórias mais belas de Caprioli” foi feita com base num inquérito entre cinco pessoas que participaram activamente nos eventos comemorativos, em 2012, do centenário do “desenhador poeta”, numa organização conjunta da Câmara Municipal de Moura e do GICAV (Viseu): Carlos Rico, Luiz Beira, Jorge Magalhães, Carlos Almeida e Fulvia Caprioli.

Cada voto numa história equivalia a x pontos (escala de 1 a 12) e do seu somatório nas tabelas individuais resultou o quadro com a classificação geral, que aqui reproduzimos recentemente, dando também a conhecer outros títulos votados no inquérito, mas que ficaram de fora desse quadro por terem tido menos pontuação ou menos votações (caso de “Os Pescadores de Pérolas”, com os mesmos 13 pontos do 12º classificado, mas apenas com dois votos).

Num inquérito mais alargado, surgiriam certamente alterações significativas, com algumas histórias a reforçar posições e outras, em lugares mais precários, a sair da tabela. Há, no entanto, uma variante de certa importância, pois Fulvia Caprioli votou numa escala mais genérica, abrangendo histórias inéditas em Portugal, como L’Isola Tabù, Il segno insanguinato e Moby Dick (2ª versão, publicada postumamente em 1975), e Carlos Rico escolheu outra história desconhecida entre nós: “A Patrulha Branca” (La Patrouille Blanche).

Aqui têm mais algumas páginas desse trabalho com as mais belas histórias de Caprioli, nas versões originais e pela ordem em que foram classificadas, todas fazendo parte de um e-book (dvd) editado em Agosto de 2012 pelo GICAV – Grupo de Intervenção e Criatividade Artística de Viseu.

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“I gatti” (os gatos) na arte de Caprioli – 5

Para fechar com “chave de ouro”, como soe dizer-se, esta rubrica, eis duas páginas com desenhos em estilo cómico que Fulvia Caprioli teve a gentileza de nos enviar. São inéditas, porque a revista dos anos 40 L’Ometto Pic, que começara a editar este trabalho de Caprioli — um dos raros exemplos do seu aliciante registo humorístico —, acabou logo depois da publicação das duas primeiras pranchas.

O título da história era L’isola incantata (A Ilha Encantada) e tinha como principal atracção uma bruxa chamada Menega, capaz de voar numa vassoura e de se transformar numa gata “faladora”!lisola-incantata-3-inedita12

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Caprioli e os “Mosqueteiros” da pradaria

 “COWBOYS” DE TODO O MUNDO

Caprioli (Il Vittorioso)

Eis mais uma magnífica ilustração de um Mestre da BD e da arte das imagens, um “virtuoso” em toda a acepção da palavra, que curiosamente também manifestou apreço pelas histórias de cowboys, tendo oferecido aos seus inúmeros admiradores duas ou três aventuras do género, como o memorável Dakota Jim, o “Cowboy” Verde, publicado com grande êxito na revista italiana Il Vitto- rioso e entre nós no Cavaleiro Andante (1954-55). Todos os leitores dessa época, mesmo os que preferiam outros temas,  se lembram ainda desse herói.

Franco Caprioli era um artista versátil e de grande cultura que, além de criar excelentes histórias aos quadradinhos, recheadas de belas imagens (como comprovam as duas páginas reproduzidas mais abaixo, pertencentes às aventuras de Dakota Jim), gostava de ensinar através desse lúdico e eficaz meio de expressão, cujas potencialidades reconhecia e admirava, abordando variadíssimos temas sobre a história, a arte e a cultura dos povos, desde os tempos mais remotos até à época em que viveu. E sempre com um profundo poder de erudição e um perfeccionismo gráfico que deixava os leitores maravilhados.

Caprioli (Dakota Jim)No caso vertente, a primorosa ilustração — com o romântico título, em português, Os Famosos Mosque- teiros da Pradaria” — mostra-nos como eram os cowboys em várias partes do mundo e não apenas no terri- tório onde o seu caris- mático nome nasceu e se tornou mais popular: os Estados Unidos da América. Traduzido em espanhol, o nome dos guardadores de bovinos é vaquero e esses genuínos rivais dos cowboys do Texas, do Kansas e do Arizona encontram-se ainda, em pleno século XXI, nalguns países da América do Sul, onde as imensas pradarias cobertas de erva podem também rivalizar com as da América do Norte.

Alguns dos vaqueros retratados por Caprioli são originários do México, da Bolívia e da Argentina; quanto a estes últimos destacam-se, com especial relevo, pelo seu pitoresco, o trajo, a montada e as “armas” dos gauchos, nome que designa os lendários heróis das pampas. Também na Europa há cowboys, ainda que de outra espécie menos mítica, como o buttero da Toscânia (Itália) e os cossacos das estepes russas.

Estes também gozaram, noutros tempos, de fama universal, graças aos grandes escritores eslavos (Tolstoi, Gogol, Puskin) e ao cinema, e eram comparados aos melhores cavaleiros do mundo, embora se dedicassem mais à guerra do que ao gado. Hoje, já não se ouve falar de cossacos na Ucrânia e noutras antigas regiões da Rússia, cujas tradições mudaram radicalmente.

Posto isto, por que não incluir também nesta nobre selecção dos “Famosos Mosqueteiros da Pradaria” os nossos valentes campinos ribatejanos, que passam a vida a cavalo e sabem lidar com animais mais bravios e corpulentos do que aqueles que os cowboys americanos conduziam pachorrentamente ao longo das suas intermináveis pistas?

Caprioli (Dakota Jim - 2)

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