O estúdio de Caprioli – 1

Instrumentos de trabalho

«Una scatola di ‘svedesi’, pennini con penna, inchiostro Pelikan nero, matita Fila, in vecchio compasso, una gomma Pelikan verde. Questi erano i suoi oggetti abituali».

Uma caixa de [cigarros] ‘suecos’, aparos com caneta, tinta Pelikan preta, lápis Fila, um compasso velho, uma borracha Pelikan verde. Estes eram os objectos habituais com que Caprioli realizava as suas histórias para revistas juvenis, como o Il Vittorioso e o Il Giornalino, sem talvez se dar conta da modéstia e simplicidade dos instrumentos com que criava verdadeiras obras de arte.

E também não nos admira que, para alguns leitores mais fantasistas, as histórias do mestre pudessem ter uma origem transcendente, como se não fossem produto de mãos humanas, mas de máquinas que imprimiam directamente os seus sonhos numa folha de papel!

Nesta imagem, vemos Caprioli no seu estúdio, instalado numa dependência da rústica e espaçosa mansão de Mompeo (ainda hoje propriedade da família), onde passava grande parte do seu tempo, dividindo-o com as estadias na residência de Roma.

Mas, fiel a um hábito antigo, tanto usava o estúdio como fazia os seus desenhos em qualquer sítio, mesmo ao ar livre, no frondoso jardim contíguo à mansão, bastando-lhe, para isso, os seus cigarros (ou o cachimbo), um aparo e uma velha prancheta (de que nunca se separava) pousada sobre os joelhos.

A prancheta de estimação em que Caprioli trabalhou durante grande parte da sua carreira

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Caprioli e os Descobrimentos

A viagem de Cristóvão Colombo numa magnífica pintura de Franco Caprioli

Homem de grande cultura e artista de rara sensibilidade poética, que produziu, desde o início da sua carreira dedicada aos jovens, algumas das mais primorosas criações da BD italiana, Franco Caprioli interessou-se especialmente por temas como a Pré-História, a época do Império Romano e as navegações marítimas — que o levaram, nas asas do sonho e da imaginação, a percorrer os oceanos em veleiros de três mastros, até paragens exóticas repletas de ilhas encantadas, ou nas bojudas naus e caravelas da época dos Descobrimentos.

La Storia della Navigazione foi um dos temas documentais que mais explorou, através dos seus meios de expressão favoritos, a ilustração, a pintura e a banda desenhada, ensinando e encantando os leitores de revistas como o Il Vittorioso e o Il Giornalino. Curiosamente, foi nesta última que, nos anos 60, dedicou algumas ilustrações aos navegadores portugueses do século XV, cujas épicas viagens de descoberta por mares nunca dantes navegados decerto o fascinaram tanto como a do seu compatriota Antonio Pigafetta, fiel companheiro de Fernão de Magalhães e cronista da primeira volta ao mundo — feito que Caprioli evocou, com a sua consumada mestria, numa história publicada, em 1955, pelo Il Vittorioso e, no ano seguinte, pelo Cavaleiro Andante (nºs 227 a 256).

Neste post, damos a conhecer algumas dessas ilustrações do mestre italiano, em que surgem as figuras de Vasco da Gama e Fernão de Magalhães, assim como as esquadras de Cristóvão Colombo e de Bartolomeu Dias, o primeiro navegador ao serviço de um rei português a quebrar o mito de que o mar terminava em abismos sem fundo e era impossível transpor o fatídico Cabo das Tormentas — onde Luís de Camões, anos depois, faria surgir a aterradora figura do gigante Adamastor, simbolizando a fúria do mar proceloso.

Como demonstram estes exemplos, Caprioli não só conhecia a história da navegação, nos séculos XV e XVI, como o papel primordial dos navegadores portugueses que alargaram as fronteiras do mundo contemporâneo e dissiparam as lendas tenebrosas sobre os oceanos onde os povos ocidentais nunca se tinham aventurado. Excepto, segundo reza a lenda, um pequeno grupo de Vikings que, no limiar do século XI, foram os primeiros a atingir a costa norte do futuro continente americano, liderados por um intrépido explorador que habitava a Gronelândia, chamado Leif Erikson.

A viagem de Bartolomeu Dias noutra magnífica pintura de Franco Caprioli

La Storia della Navigazione

Este magnífico livro editado em Maio de 2016 pela Passenger Press (www.passengerpress.com), reúne muitas pranchas inéditas de Caprioli, pertencentes ao acervo de sua filha Fulvia. Com tiragem reduzida, 88 páginas (na grande maioria de banda desenhada), em papel de boa gramagem, excelente impressão e prefácio de Paolo Maini (Un mare di puntini), La Storia della Navigazione é uma obra que qualquer admirador da arte de Franco Caprioli gostaria de ter na sua estante.

O sumário, com textos também inéditos do próprio Caprioli — cuja assombrosa erudição fica, mais uma vez, demonstrada —, vai desde as primeiras navegações dos homens pré-históricos e das explorações dos fenícios, cartagineses, romanos, vikings e outros povos de épocas remotas, até aos descobrimentos portugueses e espanhóis do século XV, com destaque para as viagens de Bartolomeu Dias e de Cristóvão Colombo, terminando com a morte deste último, em 1506.

O mesmo tema, embora com outro enquadramento, já tinha sido abordado por Caprioli noutra série didáctica, Storia della Scoperta della Terra (História da Descoberta da Terra), cujos artigos, com texto de Guglielmo Valle, foram publicados no Il Vittorioso em 1958, aparecendo também nos primeiros números do Zorro, revista editada pela Empresa Nacional de Publicidade, que sucedeu em 1962 ao Cavaleiro Andante.

É essa série que começaremos em breve a apresentar aos nossos leitores, a propósito das viagens de descoberta, num mundo ainda desconhecido, e dos feitos dos grandes navegadores e exploradores que Caprioli retratou também no seu livro póstumo La Storia della Navigazione.     

Magnífica prancha de Caprioli colorida especialmente para a edição da Passenger Press

Caprioli e a Pré-História – 5

Soberba prancha de Franco Caprioli para um trabalho inédito sobre a Pré-História (Paleolítico Superior), um dos temas favoritos do saudoso Mestre italiano, por nele poder dar vazão não só ao seu talento artístico como aos seus profundos conhecimentos da história da Humanidade em áreas como a Antropologia, a Arqueologia, a Etnologia e outras ciências relacionadas com as épocas mais remotas.

Histórias inglesas de Caprioli – 7

“O RAPAZ QUE  CONQUISTOU UM IMPÉRIO”

Franco Caprioli foi, indiscutivelmente, um dos melhores desenhadores italianos que passaram por revistas inglesas, durante os anos 1960, mas devido à sobriedade do seu estilo — próximo da “linha clara”, em absoluto contraste com o expressionismo da moderna escola americana, introduzida em Itália na década anterior — nunca alcançou o mesmo êxito, junto do público e dos editores ingleses, que alguns dos seus compatriotas oriundos de uma geração mais jovem, como Hugo Pratt, Ruggero Giovannini, Renato Polese, Sergio Tarquinio e Gino d’Antonio.

No entanto, não lhe faltaram encomendas de trabalho, através do estúdio de Alberto Giolitti, e mesmo sem ter criado nenhuma série especial ou personagens que se gravassem indelevelmente na memória (salvo Olac, o Gladiador, herói de larga fama que passou por várias mãos, incluindo as de Giovannini), o seu percurso nas revistas britânicas foi também digno de nota, abrangendo títulos como Ranger, Look and Learn, Lion, Tiger e Tina, entre outros.

No Lion, o semanário juvenil de maior tiragem e popularidade editado nessa época pela Amalgamated/Fleetway, surgiram, como já referimos, algumas narrativas curtas inspiradas em factos verídicos, sob a epígrafe Bravest of the Brave (como a batalha do Álamo, o cerco de Pequim, a odisseia do Capitão Scott, a viagem de Shackleton, a primeira travessia da Austrália, etc.), que foram esporadicamente publicadas nalgumas revistas portuguesas, sempre mantendo o anonimato de Caprioli, como nas suas congéneres britânicas.

Ao mesmo tipo de relatos pertence a história de Gengis Khan, o lendário guerreiro mongol (de seu verdadeiro nome Temujin) que criou um vasto império nas estepes  asiáticas, depois de ter sido escravizado e condenado à morte quando ainda era muito jovem — episódio esse narrado por Caprioli em imagens de grande perfeição, como sempre foi seu timbre (e em que também há vigor e dinamismo), publicadas num almanaque anual (1968) da revista Champion, outro semanário juvenil da Fleetway.

Esta história, com quatro páginas apenas, faz parte das que tiveram tradução portuguesa em revistas de pequeno formato, no caso vertente a Colecção Condor Popular nº 8 (vol. 73), de onde a extraímos para termo de comparação com o original. Claro que as diferenças são muitas, a começar pela cor em duas páginas.

Também não falta o “carimbo” da CP, de uso obrigatório em todas as publicações da Agência Portuguesa de Revistas, que tinha de recorrer aos comboios como meio de transporte para chegar mais economicamente a todos os pontos do país. Vá lá que escolheram uma vinheta onde a arte de Caprioli não sofreu grandes danos. Mas o formato muito reduzido (metade do A5) e a deficiente impressão estragaram tudo. Gengis Khan e Caprioli mereciam melhor!

A vida trágica de Emilio Salgari

Artigo publicado no 3º e último fascículo da colecção “O Corsário Negro” (suplemento do Mundo de Aventuras), editada em 1977/1978 pela agência Portuguesa de Revistas, com uma tiragem de 10.000 exemplares (mas hoje extremamente rara), e dedicada a um dos mais extraordinários personagens criados pela febril imaginação de Emilio Salgari, cuja atribulada existência decorreu de 21 de Agosto de 1862 a 25 de Abril de 1911, dia em que se suicidou, apunhalando-se, num bosque de Turim.

Caprioli foi indiscutivelmente um fervoroso admirador da sua obra, buscando inspiração em muitos dos seus temas e chegando inclusive a colaborar com Luigi Motta (o maior discípulo e continuador de Salgari) na deslumbrante aventura “O Elefante Sagrado”, cujas afinidades com os cenários exóticos fantasiados pelo grande romancista nascido em Verona são bem evidentes.

Esta magnífica prancha pertence à história “O Elefante Sagrado”, publicada em 1949 no semanário Il Vittorioso, com desenhos de Caprioli e argumento de Luigi Motta, que evoca irresistivelmente o cenário exótico e misterioso de um dos melhores romances de Emilio Salgari: “Os Mistérios da Floresta Negra”.

Caprioli e a Pré-História – 4

Esta página com um artigo de António Dias de Deus, baseado na magnífica ilustração de Caprioli que serviu de capa ao nº 1 (2ª série) do fanzine Cadernos de Banda Desenhada (Novembro 1995) — onde foi publicada a história “Uma Estranha Aventura”, um dos mais perfeitos exemplos do primor artístico e da vasta erudição do mestre italiano, até em domínios reservados a especialistas como a Paleontologia, a Antropologia e a Etnologia —, era destinada à 2ª edição desse fanzine, que por motivos de força maior não chegou a concretizar-se.

Trata-se, pois, de um artigo inédito que muito nos apraz divulgar neste blogue, com a devida vénia ao seu autor, um dos mais notáveis críticos e historiadores da BD portuguesa, de quem infelizmente há muito não nos chegam notícias.

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