Os rivais de Caprioli – 1

“INOCENTE DE QUALQUER CRIME!”

Página ilustrada por Ruggero Giovannini (1922-1983) e publicada na contracapa do Mundo de Aventuras nº 856, de 17 de Fevereiro de 1966.

 BREVE BIOGRAFIA DE GIOVANNINI

Giovaninni, um dos “monstros sagrados” do fumetto italiano (dez anos mais novo do que Caprioli), iniciou a sua prolífica carreira ainda muito jovem nas páginas do semanário católico Il Vittorioso, onde se tornou um dos mais representativos discípulos da “escola” americana, influenciado pelo estilo de desenhadores como Will Gould e Milton Caniff

Mestre do claro-escuro, com um grande domínio do movimento e da técnica narrativa, mas sempre insatisfeito, em busca da síntese gráfica e do dinamismo na estilização, Giovaninni abordou histórias e personagens de todos os géneros (excepto a ficção científica), que nas suas mãos pareciam adquirir uma estética nova, realçada pelo vigor expressionista do traço.

Desde os aventureiros e exploradores como Jim Brady e Mister V (em cujas rocambolescas peripécias não faltava um toque humorístico), dos índios e dos cowboys de “Sombras Selvagens”, “As Grandes Águas”, “A Vingança de Mocassin Rosso” e “A Última Fronteira”, até aos guerreiros do Império Romano, das Cruzadas e do Japão, retratados com fidelidade e esplendor formal, na melhor tradição do Il Vittorioso, em “Ego Lucius” (inédito entre nós), “O Nome Escrito na Água”, “A Cruz Sobre o Peito”, “Os Guerrilheiros de S. Marcos”, “O Sino dos Cavaleiros” e “O Juramento dos Samurais” (esta, sem dúvida, uma das obras mais notáveis da primeira fase da sua carreira).

Muitos dos seus trabalhos, abrangendo quatro décadas, figuram no sumário do Cavaleiro Andante (idem Álbuns e Números Especiais) e de outras revistas juvenis, como Mundo de Aventuras, Condor, Titã, Colecção Alvo, Condor Popular, O Falcão Jornal do Cuto. Registe-se também um álbum publicado pela Editorial SEL, com o título Vikings – Os Lobos do Norte.

Giovaninni distinguiu-se, entre os autores de BD da sua geração, pela facilidade em retratar ambientes históricos, género em que viria a especializar-se, tanto no Il Vittorioso como em revistas inglesas, para as quais começou a trabalhar nos anos 1960, produzindo inúmeras criações com um traço sempre estilizado e a sua refinada técnica do preto e branco.

Entre as suas “coroas de glória” desse período destacam-se as adaptações de vários clássicos literários, como Ben-Hur (na imagem supra), Os Três Mosqueteiros e O Último dos Moicanos, e em particular a série Olac, o Gladiador, que partilhou com outros desenhadores no semanário Tiger, mas onde ficou gravada a sua marca indelével de mestre do estilo realista e das narrativas de temática histórica. Olac foi um dos heróis mais célebres da BD inglesa e fez também as delícias dos leitores do Mundo de Aventuras, que publicou vários episódios.

Outra série de temática semelhante, com o traço de Giovannini, é Wulf the Britton (continuada, depois dele, por Ron Embleton), que em Portugal teve honras de publicação n’O Falcão, formato grande, com o título nos primeiros episódios de “O Preço da Liberdade”.

Durante os últimos anos de vida, Giovannini colaborou no Il Giornalino, outra célebre revista italiana, para a qual produziu excelentes séries como Capitan Erik, Ricky e I Biondi Lupi del Nord. Morreu prematuramente na sua cidade natal, Roma, em 5 de Março de 1983, com 61 anos apenas (por coincidência, a mesma idade com que desapareceu Caprioli).

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Duas revistas muito diferentes

IL VITTORIOSO versus CAVALEIRO ANDANTE

Nascido em 9 de Janeiro de 1937, o Il Vittorioso – semanário de orientação católica, fundado por Luigi Gedda e dirigido por Nino Badano, que lançou artística e tematicamente as bases de uma nova escola do fumetto italiano –, contou desde o primeiro número com a preciosa colaboração de um jovem desenhador que começava, então, a dar os primeiros passos na difícil, mas apaixonante arte das histórias aos quadradinhos: Franco Caprioli. Mais tarde, devido ao sucesso que obteve, algumas das suas histórias foram publicadas à razão de duas, quatro, seis ou mesmo mais páginas por número. Tal não aconteceu com “L’Elefante Sacro”, porque em 1949 o Il Vittorioso tinha apenas oito páginas, publicando várias aventuras em cada número.

vinheta elefante sacro 1903

Metade dessas páginas, impressas em offset, eram a quatro cores e, por opção editorial, destinavam-se em regra às histórias e aos desenhadores, como Caprioli, mais apreciados pelo público juvenil. A variedade de assuntos que preenchia a revista obrigava também a conceder menos espaço às histórias secundárias, que às vezes ocupavam apenas metade, um quarto ou dois terços das páginas.

Ao contrário do que era norma no Cavaleiro Andante e noutras revistas portuguesas — de figurino mais modesto, em tamanho e qualidade gráfica —, o Il Vittorioso dava apreciável destaque aos nomes dos seus colaboradores, tanto da parte artística como literária, chegando até a apresentar as suas biografias, o que permitia estabelecer um contacto mais próximo entre a redacção e os leitores.

Por causa do anonimato a que eram sujeitos nessa época, tanto em Portugal como noutros países europeus (a Inglaterra, por exemplo, onde os desenhadores nem sequer podiam assinar os seus trabalhos), tornou-se difícil para os  leitores mais curiosos descobrir a identidade de muitos artistas que não mereciam ser relegados ao esquecimento. Essa prática, sobretudo em relação aos desenhadores estrangeiros — Caprioli pode ser considerado uma das raras excepções —, foi um dos pontos mais negativos que distinguiram o Cavaleiro Andante do Il Vittorioso e de outras publicações juvenis suas congéneres.

No nº 22, de 29 de Maio de 1949, em que se iniciou a publicação de “L’Elefante Sacro”, o semanário italiano — de conteúdo controladovinheta elefante sacro 2 pelas instituições católicas que o editavam, mas sem um rigor excessivo — apresentava nas suas páginas de grande formato mais seis aventuras ilustradas por alguns dos seus melhores colaboradores artísticos: Gianni de Luca (L’Impero del sole), Sebas tiano Craveri (Avventure di Micio e Carboncino), Ruggero Giovannini (Bisonte Nero), Benito Jacovitti (Le babbucce di Allah), Renato Polese (Nella terra di nessuno) e Giulio Ferrari (Ombre e Luci).

Entre os argumentistas, todos eles de boa fibra literária, surgiam os nomes de Roudolph (pseudónimo de Raoul Traverso), Luigi Motta (que escreveu o roteiro de L’Elefante Sacro), B. Costa, Atamante e Eros Belloni.

Apenas duas dessas histórias (L’Impero del sole e Bisonte Nero) tiveram honras de estreia no Cavaleiro Andante, que privilegiava os desenhadores de estilo mais realista. Por isso, espanta-nos que uma obra-prima como Ombre e Luci, cujo tema de fundo é a trágica erupção do Vesúvio que devastou Pompeia, não tenha merecido figurar nas páginas do semanário juvenil português, onde as histórias de Giulio Ferrari foram também das mais apreciadas.

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