Os rivais de Caprioli – 2

Pertencente à mesma geração de Caprioli — a par do qual colaborou nas revistas Argentovivo! e Topolino —, Rino Albertarelli (1908-1974) foi um dos maiores valores da escola italiana anterior à 2ª Grande Guerra e que floresceu também durante os anos 1940, inaugurando um novo ciclo com Il Dottor Faust e Orlando Furioso, obras-primas do realismo fantástico, Kit Carson Cavaliere del West, um marco decisivo na evolução do western, e Le Tigri de Mompracem, primeiro episódio de uma saga salgariana de grande sucesso.

“Il Dottor Faust”, uma das muitas obras-primas de Albertarelli, publicada na revista Topolino (1941-42), com argumento de Federico Pedrocchi

A pujança e a maturidade do seu estilo, exímio no retrato psicológico das personagens (como o inesquecível Sandokan, de “Os Piratas da Malásia”, ou o atormentado Corsário Negro) e nas impressivas atmosferas que criou, assim como no desenho realista da fauna selvagem, transparecem também em “Punhos de Aço”, “A Carga dos 600”, “Homens e Feras” e “Bagonhgi, o Palhaço”, histórias que o tornaram conhecido e admirado pelos leitores do Cavaleiro Andante.

Já no final da sua carreira, ilustrou para a editora Daim Press (futura Sergio Bonelli) vários volumes da série biográfica I Protagonisti, sobre personagens célebres do Oeste americano, que ficou interrompida devido ao seu falecimento. Muitos dos seus trabalhos mais marcantes noutra área, as adaptações de obras de Emilio Salgari, foram publicados pela Agência Portuguesa de Revistas (APR) em colecções que se estenderam até aos anos 1970, com as aventuras de Sandokan, revitalizadas triunfalmente nessa época pela televisão e pelo cinema italianos.

Artigo sobre Albertarelli publicado no primeiro número da colecção Emilio Salgari (APR, Novembro 1976)

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Caprioli e a censura em Portugal – 1

Publicada em Itália em 1947/48, na revista Topolino, e em Portugal no Álbum do Cavaleiro Andante nº 43 (Dezembro de 1957), a história “O Tigre de Samatra”, uma grande aventura recheada de cenários exóticos e de belas mulheres, cujas peripécias bélicas destoam do pacifismo latente em muitas histórias de Caprioli, sofreu também os efeitos da censura que reinava, nos anos 1950, sobre todas as publicações destinadas à juventude portuguesa.

Uma terna cena amorosa entre dois personagens (nos quais Caprioli se retratou a si próprio e à sua jovem mulher Francesca), que não levantou problemas, como o resto da história, na redacção do Topolino — e note-se que a Itália acabava de sair de uma guerra e de um regime fascista que deixara marcas profundas em toda a sociedade —, foi substituída no Álbum do Cavaleiro Andante por um “cartucho” com texto (de um romantismo pueril, em contraste com a naturalidade e o humor dos diálogos de Caprioli), produzindo um hiato nos desenhos que até os leitores mais ingénuos devem ter achado estranho.

Em contrapartida, cenas de grande violência, como aquela em que o “Tigre de Samatra” chicoteia brutalmente um prisioneiro, golpeando-o no rosto, passaram impunemente pelo crivo da censura. A violência era tolerada, o amor não!

Há ainda mais exemplos de imagens censuradas na 2ª parte desta história, com o título original La Tigre di Sumatra, onde continua a violenta luta entre duas poderosas seitas asiáticas: os “Valetes de Espadas” (I Fanti di Picche), chefiados por um bizarro encapuçado, de seu nome Ta-La-Ta, e os “Dragões Verdes”, em cujas hostes actuam o cruel “Tigre” e a traiçoeira espia Samada.

Para muitos admiradores de Caprioli, “O Tigre de Samatra” é uma espécie de fait-divers na sua obra, pois alia uma elevada percentagem de erotismo, expressa na forma sensual como o grande artista italiano retratou as figuras femininas, como se estivesse a trabalhar para um público mais adulto — o que despertou obviamente o zelo da nossa censura —, a uma trepidante acção que parece inspirada nos serials, os populares filmes de aventuras em episódios exibidos em sessões contínuas, por vezes durante vários dias, obrigando os espectadores mais assíduos a uma autêntica maratona.

Aguardem o próximo post sobre este tema, ainda a propósito desta aventura, do seu enredo bélico (bem documentado na página supra) e dos efeitos da censura nalgumas (belas) imagens de Caprioli, retocadas por mãos inábeis para esconder pormenores pouco chocantes, como decotes e saias curtas!

“I gatti” (os gatos) na arte de Caprioli – 3

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Aqui têm as últimas imagens com os dois felinos “José” e “Tiaré”, personagens da história L’Isola Giovedi, uma aventura passada nos mares tropicais e dada à estampa na revista Topolino, entre 1939-41.

Em breve, apresentaremos mais ilustrações com gatos do grande desenhador Franco Caprioli, cujo espírito humanista transparecia também nas relações dos heróis das suas histórias com os animais.

Em L’Isola Giovedi, Caprioli serviu-se de si próprio e de sua mulher Franca como modelos para as figuras dos jovens protagonistas Italo e Maya… e a semelhança é notável.

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A mais bela história marítima de Caprioli: “L’Isola Giovedi”

Renato Rizzo, um consagrado crítico e estudioso da BD italiana, referiu-se à magia de Franco Caprioli e ao seu perene ideal de perfeição (o que dificulta a escolha da sua maior obra-prima, entre tantas criações magistrais) como a incessante busca da Ilha Giovedi, «esse atol mítico eternamente sonhado pelo desenhador, mas sempre inacessível para ele e para nós porque forjado apenas pela matéria impalpável dos sonhos».

Nesta história, realizada para a revista Topolino, num intervalo do serviço militar de Caprioli, entre 1939 e 1941, no começo da 2ª grande guerra, o jovem desenhador idealista (então com 28 anos) quis expressar o seu desejo de um mundo sereno, utópico e distante: «Um oásis, um pequeno e pacífico paraíso de palmeiras, onde não chegasse nenhum eco de massacres e de violência, do desespero e da fome», escreveu Caprioli, referindo-se a esta história, muitos anos depois. «Uma pequena ilha onde soprava a brisa da primavera eterna e da eterna juventude… com praias banhadas por ondas límpidas e cristalinas, sem a poluição dos motores, sulcadas apenas por silenciosos e românticos veleiros».

L'Isola giovedi capaItalo, o protagonista (que Caprioli retratou à sua imagem e semelhança), era um jovem marinheiro, de espírito simples mas de sentimentos nobres, que só recorria à força física em defesa do seu pequeno mundo e da sua companheira. Quanto a Maya, a dona do seu coração (isto é, a própria mulher de Caprioli), era também, como o herói, generosa, leal e anti-conformista.

«Maya é muito rica, a laguna da “sua” ilha está cheia de bancos de ostras perlíferas, mas ela renunciará a todos os encantos da “civilização”, em troca do amor. O enredo é ingénuo, talvez demasiado propenso ao romantismo, mas exprimia os meus sentimentos… os mesmos dos jovens dessa época (e de hoje, de amanhã, de todos os tempos). E não apenas dos jovens… Sempre me extasiou o apreço unânime dos leitores pelo meu trabalho!».

Kanaki di MatarewaEstas palavras foram escritas por Caprioli no prefácio de um álbum publicado no ano de 1974 pelo editor Camillo Conti, com a reedição do episódio Fra i Kanaki di Matarewa, 1ª parte de L’Isola Giovedi, uma das histórias mais famosas do mestre italiano. A 2ª parte, com a conclusão dessa exótica aventura, recheada de peripécias, que tinha como cenário principal a Ilha Quinta-feira ou Ilha das Pérolas (título que lhe foi dado num Álbum do Cava- leiro Andante), seria publicada noutro volume, ainda com mais páginas.

Num formato muito maior, autêntica edição de coleccionador, com capas ilustradas por Fabrizio Caprioli (talentoso artista, filho do mestre, que se dedicou também à BD), distingue-se pelo seu ineditismo a homenagem de outro faneditor, o Club Anni Trenta, que em 1988 reeditou L’Isola Giovedi em três álbuns muito difíceis de guardar em qualquer estante, por causa do seu tamanho.

Será esta história que começaremos a apresentar muito em breve, após a conclusão de outra obra-prima de Caprioli: “Os Pescadores de Pérolas”, publicada também pelo Cavaleiro Andante.

Caprioli (L'Isola Giovedi)

 

Histórias de Caprioli publicadas em Itália

Caricatura azulDepois de termos apresentado neste blogue uma lista completa com as histórias de Franco Caprioli publicadas em Portugal e no Brasil, por diversas revistas e editoras, oferecemo-vos hoje uma extensa quadriculografia dos seus trabalhos publicados cronologicamente em revistas italianas, com títulos emblemáticos como Topolino, Audace, Argen- tovivo, Il Vittorioso, Corriere dei Piccoli, Giramondo, Il Giornalino, onde Caprioli se destacou, com relevo para o Il Vittorioso, ilustrando, desde 1937, dezenas de fumetti com temas exóticos e aventurosos, que deslumbraram todos os leitores com a força poética da sua imaginação e o traço límpido e harmonioso do seu estilo incomparável, caracterizado pelo perfeccionismo da técnica do “pontilhado”, cuja Comix 5 - P30 977evolução atingiu o auge nos anos 50, coincidindo com a época de maturidade física e artística do genial mestre italiano.

A lista seguinte foi reproduzida da revista italiana Comics nº 5, editada já há várias décadas (Novembro de 1972), quando o surto das publicações dedicadas ao fenómeno da Banda Desenhada e ao estudo da sua história, teoria e técnica como arte sequencial ou figuração narrativa (apreciada inclusive por grande número de intelectuais, da craveira de Umberto Eco, Alain Resnais e Federico Fellini, entre outros), chegou também a Itália.

Caprioli, falecido em 8 de Fevereiro de 1974, com 62 anos incompletos, publicou ainda no Il Giornalino duas magníficas adaptações de romances de Jules Verne, que são bem conhecidas dos leitores portugueses: “Miguel Strogoff” e “Os Filhos do Capitão Grant”, deixando esta última inacabada.

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“I gatti” (os gatos) na arte de Caprioli – 2

Eis outra história de Franco Capriolimompeo-ri-anni-settanta com personagens felinas, o José e a Tiaré. «L’Isola Giovedi», ou seja  a «Ilha Quinta-feira» (em português foi chamada «A Ilha das Pérolas»), é a continuação de «Fra I Cana- chi di Matareva», já apresentada anterior- mente, onde Caprioli aborda também, com paixão, o exotismo dos mares do sul.

Esta é a primeira página de uma romântica e fascinante aventura, só em parte conhecida entre nós.

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À direita, o cartucho do título lisola-giovedi-02que aparece em muitas outras páginas… e em baixo, a apresentação dos dois bichanos que vão ter um papel activo no enredo da história. O próprio Franco Caprioli e sua mulher Franca serviram de modelos para Italo e Maya, os dois protagonistas da aventura, como Caprioli frequentemente fazia.

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“I gatti” (os gatos) na arte de Caprioli – 1

Franco Caprioli, duplo-retrato-franco-e-francesca1981um dos mais ilustres autores da banda desenhada italiana e mundial, nasceu em Mompeo, província de Rieti, no dia 5 de Abril de 1912. Desde cedo, manifestou grande paixão pelas coisas do mar (talvez influenciado por um tio, capitão de fragata), o que, aliado ao jeito para o desenho, originou um caso curioso: o pequeno Caprioli começou a desenhar o mar mesmo antes de o ter visto pela primeira vez! Esta paixão manteve-a ao longo da vida, o que naturalmente se reflectiu na sua obra, onde a temática marítima e os cenários exóticos tiveram um papel muito relevante. Foi por isso que ficou conhecido como “o poeta do mar”.

A sua “imagem de marca” foi a utilização do “pontilhado” (técnica que consiste em desenhar pontos muito próximos uns dos outros, para dar a ilusão de sombras ou de relevo), que aplicou com mestria nas suas histórias.

A obra de Caprioli – imensa e magnífica – espraiou-se por revistas italianas mas também inglesas, francesas, belgas, espanholas, portuguesas e brasileiras. Em Itália, trabalhou para as revistas Argentovivo, Topolino, Il Corriere dei Piccoli e sobretudo Il Vittorioso e Il Giornalino.

No pós-guerra, desenhou no Giramondo uma das suas melhores criações, L’Isola Tabu, e no Topolino I Fanti di Picche. No Il Vittorioso publicou inúmeras histórias, como L’Elefante Sacro, I Pescatori di Perle, Kim, Una Strana Avventura, Dakota Jim, L’Ussaro della Morte, Aquila Maris, etc… No final da sua carreira trabalhou apenas para Il Giornalino, realizando adaptações de alguns dos maiores clássicos de Jules Verne, como “A Ilha Misteriosa”, “Miguel Strogoff”, “Os Filhos do Capitão Grant” e “Um Capitão de 15 Anos”, editadas também em Portugal nos anos 70 e 80, em álbuns e revistas como o Jornal da BD.

“Os Filhos do Capitão Grant” foi mesmo a última história em que o artista trabalhou, deixando-a inacabada devido ao seu súbito falecimento em Roma, no dia 8 de Fevereiro de 1974. Não fizera ainda 62 anos.

Caprioli amava os animais e retratou várias vezes o seu cão Toby. Mas também desenhou gatos… Seleccionámos várias páginas e vinhetas de duas histórias que se seguem e complementam uma à outra, publicadas em Itália no semanário Topolino, em 1940-41: “Fra I Canachi di Matareva” e “L’Isola Giovedi”. A título de curiosidade, refira-se que a 1ª parte desta série surgiu também em Portugal, no Álbum do Cavaleiro Andante nº 54.

Eis alguns extractos do primeiro desses episódios, desenrolados nas exóticas paragens do Pacífico, que tanto fascinavam Caprioli (e os seus leitores).

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